A Lâmpada

Quem vive em São Paulo e não freqüenta os seus bares perde, pelo menos, metade de toda a boa diversão noturna que a cidade oferece. Há, aqui, bares para todos os gostos e para todos os bolsos. O bar é o ambiente mais democrático desta megalópole que não tem praia. Os poucos parques que a cidade oferece não são recomendáveis à noite e os muitos restaurantes, cinemas, teatros, museus, casas de espetáculo e outros que tais se prestam apenas àquela finalidade exclusiva, quer dizer, no restaurante janta-se, no cinema vê-se um filme, no teatro uma peça e assim por diante. Só no bar é possível espairecer depois de um dia de trabalho, desfrutar do convívio com os amigos, conversar, namorar, flertar, exibir-se, observar ou afogar as mágoas. Pode parecer que o bar é um ambiente onde o principal atrativo é a bebida. Ledo engano. A bebida é apenas um complemento, talvez mesmo uma desculpa para ir ao bar.

Na verdade, nem é preciso que se tenha um grande apreço pelo álcool (e me perdoem as bebidas por tratá-las dessa forma tão deselegante). Basta apenas um chope, às vezes nem mesmo isso, uma água, um coquetel de frutas, uns salgadinhos, alguma coisa que nos ocupe as mãos enquanto os olhos vêem, a boca fala, os ouvidos ouvem. Porém, é preciso saber escolher o bar. E nessa busca constante pelo bar perfeito a gente acaba topando com excentricidades, algumas cômicas, outras apenas pretensiosas ou exóticas, e, raramente, misteriosas. Pois foi nessa caçada ao bar ideal que encontrei a lâmpada.

Isso aconteceu há muito tempo, mais precisamente em 1978. Era inverno, e quando essa estação resolve ser rigorosa em São Paulo costuma fazer um frio de setecentos diabos. Justamente na noite mais fria daquele ano me aventurei a ir a um bar no Largo de Pinheiros, por indicação de um amigo que se desmanchara em louvores ao boteco. Sim, era mesmo um boteco, desses com mesas puídas e salames pendurados nas traves do teto fuliginoso. E antigo, muito antigo. Tinha gente saindo pelo ladrão, uma confusão danada. O lugar era ótimo e a caipirinha, divina. Lá pelas tantas precisei ir ao toalete. Se você freqüenta bares, sabe como é: O papo está bom, você não quer perder a conversa e vai segurando, segurando, até que já não agüenta mais. E num bar como aquele dá para imaginar o tipo de banheiro que me esperava: Sujo, inundado, fedorento e com cinco marmanjos aguardando a vez na minha frente…

O banheiro ficava bem de fronte ao fim de um corredor de uns dois metros de comprimento. À esquerda e à direita havia mais dois corredores curtos. O da esquerda, bem iluminado, dava acesso ao toalete das moças e o da direita, às escuras, terminava numa porta fechada onde se lia, com algum esforço, o conhecido aviso “apenas para o pessoal de serviço”. A fila não andava. Pensei em procurar, na rua, algum beco conveniente, mas sou tímido para essas coisas e o frio era de rachar. Depois de dez minutos de desespero o meu olhar voltava mais e mais para aquela porta fechada, a do pessoal de serviço. Deduzi, pela sua posição, oposta ao toalete das meninas, que ali também era um banheiro. Saí da fila e fui até lá de fininho. A porta estava fechada, mas a chave estava na fechadura. Algum funcionário do bar a esquecera ali.  Disfarcei, abri a porta, entrei e acionei o interruptor de luz.

Mais que um banheiro, o lugar era um misto de depósito e vestiário. Teria uns oito metros de comprimento por uns dois de largura e ambas as paredes laterais eram ocupadas por armários e por grandes estantes com produtos de limpeza. Caminhei rapidamente até o fundo e achei finalmente o que eu procurava. Num canto, à esquerda, havia um cubículo com um vaso sanitário. Que alívio! Então, quando eu já havia terminado e me dispunha a voltar, a luz piscou duas vezes e se apagou. Eu já havia notado que o lugar não tinha janelas, só um desses respiros no teto, por onde só entrava o ar. É muito estranho ficar no escuro num ambiente que não se conhece. Fiquei desorientado por uns segundos, sem nenhuma reação. Então saí do cubículo e esperei um pouco a ver se meus olhos se acostumavam. Afinal, eu tinha que percorrer oito metros por uma passagem estreita entre estantes cheias de tralhas, num lugar onde eu sequer deveria estar. Avaliei a situação enquanto esperava, mas a escuridão era tal que não havia outro jeito senão ir tateando. Foi aí que notei, a dois passos de onde eu estava e quase rente ao chão, uma claridade amarelada. Fui até lá. A luz era muito fraca, mas suficiente para me permitir saber de onde vinha. Descobri que era de dentro uma caixa de papelão, dessas usadas para transportar garrafas de vinho. A caixa empoeirada ficava na prateleira inferior de uma das estantes e dentro, até a metade, havia lâmpadas!

A luz que eu via emanava debaixo delas de tal modo que parecia que todas estavam acesas, embora numa intensidade mínima. Só na total escuridão seria possível percebê-la. Não eram lâmpadas novas. Provavelmente o pessoal do bar guardava ali as lâmpadas queimadas, para depois descartá-las todas de uma vez. Sacudi uma delas para confirmar e ouvi aquele ruído característico de filamento solto. Imaginei, então, que entre aquelas lâmpadas alguém havia guardado, sabe-se lá porque, uma lanterna à pilha, sem notar que estava acesa. Bom, pouca luz é melhor que nenhuma e resolvi pegar a lanterna para ir até a porta e sair dali. Enfiei a mão na caixa e fui me guiando pela luz, até que puxei… Uma lâmpada! Era uma lâmpada comum, de vidro transparente, dessas pequenas e redondas que se usa em abajur. Estava acesa! Uma luz tênue brilhava dentro dela, tão fraca que mal se perceberia num ambiente iluminado. Fiquei ali parado, com a lampadinha nas mãos, sem entender nada, entre espantado e fascinado. Aí desconfiei do mistério e comecei a rir. Ora, aquilo só podia ser algum brinquedo, desses com bateria de relógio, que alguém descartara. Peguei a lâmpada como se pega uma vela e a sua luz me conduziu para fora do banheiro. Fechei a porta, deixei a chave como eu a encontrara e automaticamente enfiei o brinquedo no bolso do casaco. Voltei à mesa e nem me importei em comentar com o pessoal a respeito.

Só voltei a me lembrar da lâmpada uma semana depois. Era noite e eu estava me preparando para sair – ia a outro bar, é claro – quando resolvi usar aquele casaco mais uma vez. Ao enfiar a mão no bolso, lá estava ela. Pois não é que a danada ainda estava acesa! Apaguei as luzes de casa e, com isso, a sua luz se revelou mais forte. Só então pude observá-la mais detidamente. A luz, que bruxuleava dentro do seu invólucro de vidro transparente, parecia uma chama suspensa no vácuo, quer dizer, não se via nenhum filamento, nenhum fiozinho, nada. Resolvi fechar a janela da sala para que esta ficasse mais escura. Quando me aproximei da janela, lâmpada na mão, a brisa que entrava pareceu fazer tremular a chama. Olhei para a lampadinha, intrigado. Assoprei de leve e a chama dançou. Assoprei de novo, mais forte, e a chama sacudiu-se toda lá dentro, mas não apagou! Que diabo! Acendi as luzes e examinei a lâmpada por completo. Não descobri nenhum botão, porta, encaixe, dispositivo, nada. Nenhuma parte móvel, nenhuma abertura disfarçada onde se pudesse colocar uma bateria, por exemplo. A lâmpada era exatamente igual a qualquer outra do seu tipo, hermética. Não trazia nenhuma marca nem indicação de potência. Pensei em forçar a parte da rosca, mas fiquei com medo de quebrá-la.

Saí para o bar e quando voltei lá estava ela, acesa. Comprei um abajur bem pequeno só para abrigá-la, mas naturalmente não precisei conectá-lo à rede elétrica. O abajur ficou no meu quarto e à noite, antes de dormir, com as luzes apagadas, via a sua chama dançar à menor brisa, como uma vela.

Durante anos tentei desvendar o mistério da lâmpada, mas jamais consegui e nunca contei nada sobre ela a ninguém. Houve época em que eu lhe falava e ela respondia tremeluzindo e faiscando. Ela parecia contente em estar ali e eu me apeguei àquela presença luminosa e imperecível. Mais tarde o meu fascínio se tornou obsessivo, e eu passava noites em claro olhando fixamente a sua dança de fogo. Pensava em Ariel, o silfo de Próspero. Pensava nos gnomos, na fada Sininho, nos fogos-fátuos, na alquimia…

Em 2002 mudei de casa pela terceira vez, e quando fui arrumar as minhas coisas no novo apartamento, não achei o abajur. Procurei por tudo, reclamei com a empresa transportadora, que não entendeu absolutamente tanto desespero só por causa de um abajur barato. Acabei comprando outro, muito mais caro, mas sem a minha lâmpada. Fiquei muito chateado, entrei em depressão, mas hoje já estou conformado. Afinal, talvez ela tenha se assustado com a minha obsessão, ou então, depois de tantos anos de convivência, o seu tempo comigo simplesmente tenha se extinguido. A sua chama imortal, entretanto, ainda deve estar brilhando, pálida e quase imperceptível, em algum canto da cidade. Torço para que outro boêmio a encontre… E a mereça.

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  1. Olá, grande Pedrão, como vão as coisas? Tudo bem?
    Quando uma criatura como você chega em algum lugar, é sempre assim, em grande estilo.
    A gente nunca mais se viu, mas eu sempre me lembro de como era tão bom ouvir você contando histórias ou estórias.
    Hoje li A Lâmpada e no final da leitura, me perdoe a pretensão, me senti a própria Lâmpada.
    Que bom que você veio nos dizer coisas, então, conte mais!!!
    Beijão

    • Hei!!! Oi, Zuleika!! Que bom falar com você depois de tanto tempo. Legal que você gostou. Sim, sei o que você quer dizer. Acho que escrevi esse conto (que tem uns dez anos…) mais ou menos nessa direção. C’est la vie…
      Obrigado, lindíssima. Beijos. A gente vai se falando…

  2. Pedro, simplesmente encantadora sua amiga lâmpada, e igualmente encantadora surpresa em começar a ler seus contos 😉 Me senti um tanto esmorecida pela partida da lampadinha, admito.

  3. Que delícia este conto, só hoje descobri este blog e foi muito bom ler esta estória, lembrei dos tempos do Liceu, onde trabalhei com você naquela salinha … bons tempos… boas conversas… agora quando quiser matar um pouco da saudade, já sei onde.
    Parabéns, beijos

  4. OIÊÊÊ!!!!!
    A Zuzu comentou comigo sobre o conto e vim procurar. Fiquei emocionada! Você é tão lindo, e essa beleza transborda através das coisas que esceve. Beijos e beijos.

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