Aurora Boreal

Essa história ninguém me contou, aconteceu mesmo comigo numa quarta-feira de outubro de 2001. Nessa noite fiquei até umas onze horas num bar bastante freqüentado da Vila Madalena e saí de lá sozinho. Bebi pouco, apenas dois ou três chopes, e estava perfeitamente sóbrio. Tinha sido um dia quente e abafado, mas pouco antes das onze o tempo começou a mudar e, graças aos deuses, caiu uma chuva rápida e bem vinda.  Saí do bar em seguida, tranqüilamente, aproveitando o ar fresco que a chuva trouxera e procurei um táxi. Se você não é de São Paulo e não conhece a Vila Madalena, é preciso explicar alguma coisa desse bairro boêmio antes de continuar a história. Lá pelo fim dos anos setenta a Vila estava deixando de ser um pacato bairro de classe média. Abrigava estudantes, hippies, intelectuais, artesãos, artistas e um pessoal descolado. A feira cultural do bairro ganhou fama, os primeiros botecos foram aparecendo e o perfil de bairro boêmio foi se acentuando aos poucos, até a Vila tornar-se, hoje, um lugar de bares elegantes e prédios de um apartamento por andar. Sei disso porque freqüento a Vila Madalena desde a minha época de estudante. Também por esse motivo, conheço cada rua e cada beco dali.

Mas, como eu dizia, naquela noite saí à procura de um táxi e, é claro, não achei nenhum. Moro em Perdizes, um bairro vizinho, e pensei que uma caminhada de quarenta minutos não me faria mal. Fui devagar, porque as ruas da Vila são íngremes e também porque era cedo e a noite estava linda, com a bela lua crescente que surgiu depois do aguaceiro. Andei despreocupado, divagando, pensando em sei lá o quê, e quando me dei conta estava em uma rua por onde eu nunca havia passado.

Era uma rua estreita, calçada com paralelepípedos e bem arborizada. As casas estavam todas às escuras. Casinhas comuns, simples, cinzentas, e sob a pouca luz dos postes de iluminação pareciam todas igualmente prosaicas e antigas. Senti uma sensação de estranhamento, um desconforto, uma urgência de sair dali, e já me preparava para dar meia-volta quando vi o bar. Ora, um bar é um bar, e eu sempre me sinto em casa em um deles. Lembro-me de ter argumentado para mim mesmo que era uma burrice ficar apreensivo só porque eu não conhecia aquela rua. Pois agora que já conheço, pensei, porque não conhecer também aquele bar ali?

Atravessei a rua e entrei. O bar não tinha nome algum na entrada, era apenas uma porta dupla envidraçada e amplas janelas que coavam a luz amarela lá de dentro. O lugar não era grande e tinha um balcão que ficava ao fundo, ocupando toda a largura do salão. Piso rústico de lajotas prestas e brancas, prateleiras de tábua escura para os destilados, mesas comuns de madeira polida pelo uso, cadeiras simples e uma pitoresca chopeira de cobre e latão. Enfim, um bar convencional e antigo, como é possível encontrar em bairros antigos e pouco convencionais. Sentei, pedi um uísque só para pedir alguma coisa e fiquei observando.

Para quem não é de freqüentar bares pode parecer uma bobagem entrar em um apenas para ver como ele é. Mas achar um bom bar, que seja honesto e aconchegante está cada vez mais difícil. Simpatizei com a simplicidade daquele, com o seu ambiente calmo, com a sua luz amarela, com os poucos freqüentadores, quase todos eles gente madura que conversava tranqüilamente sem ser incomodada por música alta ou pela balbúrdia das turmas grandes. Não havia nem televisão ligada. Os garçons, apenas dois, eram típicos garçons. Ambos eram calvos, magros, de meia idade e vestiam calças pretas, camisa branca e gravata borboleta. Um deles tinha um bigodinho, apenas um traço sobre o lábio, que o deixava com cara de cantor de tango. Acho que fiquei por lá pouco mais que meia-hora, fumei um cigarro e pedi a conta. Juro que só tomei aquele uísque e nada mais. Antes de sair lembrei-me de perguntar ao garçom o nome do bar e também da rua, para poder voltar lá outras vezes e indicar o bar aos amigos que também gostam de lugares assim, meio nostálgicos.

O garçom, que havia me tratado com uma cortesia profissional, sorriu largamente antes de responder. Aliás, acho que ele demorou um longo minuto antes de dizer que eu estava no Aurora Boreal, na rua de mesmo nome. Agradeci, paguei, saí e voltei por onde tinha vindo. Nem me lembrei, então, da sensação de alarme que tivera. Isso já não me preocupava e fui caminhando novamente, sem pressa, pensando no novo bar que eu descobrira e que me parecera tão interessante. Quando me dei conta estava na Rua Harmonia, uma das mais conhecidas do bairro. Foi então que estranhei a claridade da noite e olhei o relógio. Eram cinco e vinte da manhã e fazia frio. Gelei, e não apenas por estar sem agasalho. De repente me senti desorientado, confuso, senil. Vi um táxi salvador que por milagre ainda rodava por ali. Dei sinal, entrei, fui para casa e dormi até as duas da tarde.

Quando, na semana seguinte, contei essa história para os meus amigos, virei alvo de chacota. A opinião geral era de que eu dormira na mesa do bar. Depois de agüentar muita gozação, tive que reconhecer que fora isso mesmo. Eu dormira na mesa, que mais poderia ser? Isso até explicava o sorriso do garçom… Foi então que um dos meus amigos, morador da Vila Madalena desde menino, me garantiu que eu não apenas dormira, mas também sonhara com o nome da rua, já que no bairro nunca houve uma Rua da Aurora Boreal! Depois de prometer a mim mesmo  nunca mais  misturar destilado com fermentado, esqueci o assunto e não pensei em voltar àquele bar tão cedo.

Meses depois, em outro bar, fui apresentado a um psiquiatra e notório boêmio, morador da Vila. Como sempre acontece em algum ponto das conversas de bar, falávamos sobre as situações estranhas que se vive quando se exagera na dose. Contei, então, mais como uma anedota, a minha aventura daquela quarta-feira. Todos riram menos o psiquiatra, que ficou me olhando com ar sério e interessado. Quando chegou a hora de irmos embora o meu novo conhecido pediu, discretamente, para que eu ficasse um pouco mais. Concordei por gentileza, mas já me preparava para ouvir alguma interpretação profissional que poria em dúvida a minha já pouco confiável sanidade mental. Mal ficamos a sós o homem aproximou a sua cadeira da minha, tomou um valente gole de uísque e disse: Rapaz, você me tirou um grande peso dos ombros. Também eu conheci aquele bar.

Conversamos por mais de uma hora. As nossas descrições do lugar batiam perfeitamente. A sua experiência fora parecida com a minha, com apenas uma diferença. Ele tentara retornar no dia seguinte à rua, ao bar. Não conseguiu! Andou por lá, dessa vez de carro, por dias seguidos. Consultou mapas, conversou com moradores antigos. Nada! Ninguém jamais ouvira falar na tal rua. Ficamos amigos, e até hoje procuramos por outras pessoas que também tenham vivido a mesma experiência. Se você for uma delas, se você também esteve lá, não vá pensar que ficou maluco quando não conseguir achar o bar uma segunda vez. Seja bem vindo ao clube do Aurora Boreal.

Anúncios
  1. Isso já aconteceu comigo… mais acho que foi sobre forte influencia de álcool… ainda não conheci o bar Aurora Boreal, mais quem sabe em breve não venha a conhecer…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: