Bar do Divino

O Bar do Divino

Você acredita em Deus? Bom, se você acredita em um deus, não há nenhum motivo para não acreditar em mais de um, não é? Talvez você concorde em admitir a existência de dois ou três deuses. Quem sabe até mais, uns vinte, trinta deuses e deusas? Pois se você puder admitir a existência de muitos deuses, certamente admitirá também que eles precisam conviver entre si. Sim, porque os deuses costumam ser imortais e, portanto, não têm muito o que fazer para passar um tempo tão vasto quanto o que a imortalidade lhes concede. Na verdade, os muitos deuses e deusas das diferentes religiões confraternizam com frequência, justamente para ajudar a encarar a eternidade. Eles têm um lugar privilegiado para se encontrar quando não estão ocupados com as súplicas dos seus adoradores. O seu nome é Bar do Divino. Mas será que um lugar assim existe? Bem, esse lugar é dotado de tanta realidade quanto a que conferimos aos próprios deuses.

Contrariamente ao que se possa pensar, o Bar do Divino não fica no Céu, no Empíreo, no Nirvana, no Valhala, no Olimpo ou em qualquer outra dessas instâncias transcendentais. Ele fica no Limbo. Vamos, você já ouviu falar no Limbo, mesmo que não tenha religião. Pois o Limbo é o lugar para onde todos os crentes, de todas as religiões, convergem. É uma espécie de Estação Central, uma mistura de rodoviária, ferroviária, aeroporto e shopping center. Você chega e, enquanto não pega o transporte para o destino prometido pela sua religião, fica por ali, de bobeira. Pois então, o Bar do Divino fica no Limbo porque lá é terra de ninguém, nenhum deus em particular manda ali. Também, ao contrário da maioria dos bares, onde a gente chega sóbrio e sai bêbado, para chegar ao Bar do Divino é preciso, primeiro, tomar um pileque. Acontece que só se alcança o Limbo depois de morto, ou então no último estágio da embriagues. Ser admitido no Bar do Divino, entretanto, é outra coisa, e vai depender do deus de plantão. Sei disso porque já estive lá. Por isso, dou algumas dicas:

Se o deus judaico-cristão estiver de serviço, não perca o seu tempo. Ele não atende ninguém, e só vai ao bar porque é chegado num vinho de sacristia. De resto, detesta o convívio com os outros deuses. O problema é que Adonai, ou Javé, ou Jeová (ele tem vários nomes, mas não atende por nenhum…) acha que é o único deus ali. Vai entender…O alter ego de Adonai, (os deuses têm dessas coisas) Alá, também é frequentador, mas nem tente entrar durante o seu plantão. O deus do Islã não bebe e não gosta de gente que bebe. Fica no bar apenas para ter alguma companhia, e retribui colaborando com a manutenção do estabelecimento.

Você terá melhor sorte se o plantão for do Buda. Ao contrário do seu colega Jeová, que acha que é o único deus do pedaço, o Sidarta não se acha um deus, ou melhor, diz que não é deus! Dá pra acreditar? Ele é gente boa, muito tranquilo e chegado num saquê, que ele aprendeu a tomar com os xintoístas. Mas isso é outra história. Se você chegar no plantão do Buda vai se dar bem, desde que ele esteja acordado, é claro. É que o Buda costuma entrar em transe meditativo…

Outro que o receberá bem é o Ganesh, o deus-elefante indiano. Muito comunicativo, fala muito com as mãos e é bonachão. Prefere leite, mas rendeu-se à batida de coco (o aspecto é o mesmo) que lhe foi apresentada por Xangô. Cuidado, entretanto, se o plantonista for Odin, Thor ou algum outro deus nórdico. Com eles é preciso ter tato. Eles se acham os donos do pedaço e chamam o lugar de Taverna de Asgard. São meio encrenqueiros mas são bons convivas depois que se acostumam com a gente, e são chegados num hidromel, embora tenham aderido à cerveja tipo ale apresentada por Osíris. Por falar em Osíris, é melhor não aparecer no bar no plantão dele, de Horus ou de qualquer outro deus egípcio. Eles são estranhos e exigem de quem os visita que estejam vestidos a rigor, ou seja, como múmias. É o rigor mortis…

Mas se você estiver com sorte, sorte mesmo, chegará no plantão de Dionísios. O bom e velho Baco é um excelente copo, inventou o vinho e as bebedeiras, e é também um dos fundadores do bar. Além disso é muito gente fina, nem parece que é deus. Foi dele a ideia de criar o Bar do Divino, no que foi imediatamente apoiado por Olorum e todo o panteão dos deuses Iorubás, além das divindades celtas. Exu, por exemplo, não sai do balcão (foi quem introduziu a cachaça no bar) e Iansã desfila por lá todas as noites. Aliás, esqueci de dizer que as deusas são muito bem vindas no Divino. É fácil encontrar, numa noite movimentada, as deusas africanas de papo com as deusas olímpicas enquanto tomam néctar e vinho de palma. Afrodite e Oxum às vezes se estranham, mas é um deleite observar a divina beleza e sensualidade das duas. E a bela deusa celta Brighid, com sua harpa, sempre dá uma canja no palco. Aliás, partiu dela a sugestão do nome: Bardo Divino. Percebeu?

Outros deuses menos populares também aparecem, como é o caso de Iamandu, o deus dos tupi-guaranis, que não aguentava mais beber cauim e veio atrás de uma caipirinha. Está sempre acompanhado das belas Jaci e Araci. Já os estranhíssimos Quetzalcóatl, Tezcatlipoca e Huitzilipochtli, de impronunciáveis nomes aztecas e personalidades incompreensíveis e assustadoras, vivem brigando entre si. Ainda bem que eles nunca tomam conta do bar, senão só beberíamos blood mary feito com sangue sacrificial. Melhor ficar longe desses caras.

Se por acaso você conseguir ser admitido, não fique assustado. Deuses são mesmo criaturas esquisitas (ou eu deveria dizer criadores esquisitos?), e nunca se sabe quando um deus pouco conhecido e exótico resolve dar as caras. Na última vez que lá estive quem apareceu, sé é que se pode dizer isso, foi o deus sioux Wakan Tanka, um tipo muito misterioso, fechado e envolto em brumas. A gente tinha que adivinhar até o que ele queria beber. Em compensação tive uma longa e instrutiva conversa com Mitra, e lamentei que ele tivesse sido substituído por Cristo na preferência dos ocidentais. Mitra é um tipo varonil e meio fanfarrão, parece mais um super herói que um deus. Por isso mesmo é muito simpático. Gosto dos deuses de origem persa. Varuna, por exemplo, é muito gentil, educado e conciliador. Quando surge algum mal entendido entre os deuses, ele sempre é chamado para apaziguar os ânimos.

Já tive bons interlóquios com as divindades. Em geral eles são bons conversadores. É claro que alguns são inacessíveis por conta da extrema popularidade. O deus judaico-cristão é um deles. Pode parecer antipatia minha, mas ele está sempre cercado por um exército de anjos-da-guarda-costas e só fala por intermédio de porta-vozes. O seu filho Jesus, ao contrário, é a humildade em pessoa. É muito simpático, conversa com todo mundo e é quem fala pelo pai. Aliás, nem parece que são pai e filho. Shangdi, o deus supremo dos chineses, padece do mesmo mal. Acontece que só os antigos imperadores podiam falar com ele. Como o império acabou, ele não fala com mais ninguém. Fazer o quê… É o mal dessas grandes religiões. Com os deuses hindus isso também acontece. Eles estabeleceram as castas entre os seus seguidores e só atendem aos brâmanes, da casta superior. Entretanto, são em tal número que nunca se sentem isolados. Aliás, já encontrei com o próprio Brahma no bar. Não, não fiz piada com o nome dele. Com deuses muito poderosos como Brahma não se brinca…

Agora, talvez você queira saber como chegar no Bar do Divino. Muito simples. Primeiro, escolha uma boa bebida, que não dê muita ressaca no dia seguinte. Aliás, aqui vai um segredinho. Dependendo da bebida que você escolher, você será resgatado por um emissário diferente. Vinho atrairá Mercúrio ou Hermes. Pinga chamará Exu. Não escolha cerveja, pois demora pra fazer efeito e atrai um dos mensageiros egípcios, e isso não é nada bom… Eu sempre tomo um bom uísque irlandês. Mas, como eu dizia, escolha uma boa bebida, tome um porre pantagruélico e vá acompanhando os sintomas clássicos. Não pare de beber enquanto não sentir a sua língua inchar, a cabeça rodar e as pernas bambearem. Então chame o emissário. Eu disse emissário e não o Hugo. Se você estiver em sintonia com o universo etílico, alguém virá buscá-lo um segundo antes de você entrar em coma. É arriscado, mas vale a pena. Fiz isso vinte e uma vezes. Em sete delas acordei no hospital, e em outras sete não me lembro do que aconteceu. Nas demais fui bem sucedido e me diverti muito na companhia dos deuses. Alguns deles são realmente uns pândegos e me receberam muito bem, tanto que virei deus honorário. Zeus me disse que se eu criar uma religião bem legal e conquistar um bom número de adeptos, ele dará um jeito na minha mortalidade. Bom, não é? Já estou providenciando. Mas não vá me culpar se você errar na dose e morrer de tanto beber. Os mortos não são admitidos no bar, que é lugar de quem é muito vivo, e pode acontecer de você passar direto pelo limbo e acordar no inferno, ou onde quer que você acredite que irá depois de morto. Porém, se você tiver sucesso e encontrar Palas Atena por lá, de-lhe lembranças minhas.

 

 

 

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