Um conto do século dezenove

São tantos os homens ilustres, luminares do saber ou da política, valorosos guerreiros e conquistadores, descobridores de terras e de povos, desbravadores de inóspitos continentes, médicos dedicados, santos homens da religião e da fé, diplomatas argutos, artistas inspirados, enfim, são tantos aqueles que se sobressaem pelos seus feitos que é impossível nomear apenas um deles e a este dedicar um panegírico, sem que a omissão dos demais nos pareça grande injustiça. É o que ocorre com as principais personalidades do nosso tempo, em que doutos cientistas e eminentes cardeais ombreiam em valor e importância com magnânimos chefes de estado, prósperos empreendedores e insignes magistrados. Depois de muito refletir sobre essas vidas expoentes, depois de muito avaliar suas obras e realizações e tudo o quanto estas modificam, interferem e alteram os rumos de nossas próprias vidas, decidi-me por lembrar a trajetória impar de Monsieur de Clavas. Todavia, agora me parece vislumbrar na fronte dos meus leitores uma mui bem justificada ruga de interrogação e perplexidade. Sim, pensarão os meus leitores, que terá feito esse ignoto Monsieur de Clavas para merecer figurar entre os afamados e decisivos nomes do nosso tempo, e ser dentre eles destacado? Ou será que nós, leitores atentos desse periódico, temos sido tão mal informados que nos passou despercebida tão fulgurante personalidade. Pois, caros leitores, afirmo que nenhum desses baluartes da sociedade humana poderia figurar, sequer, ao pé da página onde a vida de Clavas mereceria ser contada. Porém, contar-lhe a vida, aqui, seria excessivo. A tanto já não me atrevo, embora não me falte engenho ou, tão pouco, espaço nesta generosa coluna na qual me permitem escrever os editores deste hebdomadário. Ocorre que Monsieur de Clavas tem-se destacado por ser, sem nenhum favor ou exagero, absolutamente insignificante. Não, caros, não se trata de chiste! Acompanhem-me pelas próximas poucas linhas  e compreenderão quem é esse curioso personagem.

Clavas é filho de antiga casa rural, daquela pequena e rude nobreza que quase não se distingue dos seus serviçais. Na infância e juventude jamais se destacou, quer no desporto, quer na corte, ou mesmo entre os seus pares de província. Tornamo-nos amigos ainda meninos, quando vagabundeávamos pelos campos atrás de caça miúda. A despeito de revelar uma inteligência brilhante, ou mesmo, talvez, por causa dela, Clavas não dispensava o menor interesse por destacar-se em qualquer atividade. Separamo-nos na juventude e apenas ontem o reencontrei, inteiramente por acaso, a experimentar perfumes na botica. Sentamo-nos, então, num café próximo, para sabermos um do outro e, como ocorre frequentemente, para avaliarmos o quanto nós prosperamos em relação a quem não vemos desde a infância. Confesso honestamente que foi isso, mais que a nostalgia da nossa velha amizade, que me levou a perguntar sobre que fazia ou como vivia, ou o que pensava. Justiça lhe seja feita, Clavas tratou-me com sincero afeto e nenhuma afetação. Após saber de mim que me tornara escritor, que freqüentava os mais concorridos saraus e era influente junto aos conselheiros, disse-me que vivia modestamente, mas com suficiente conforto, em um pequeno apartamento na cidade. Confessou que não se casara, não tivera filhos, não freqüentava a sociedade, não publicava as suas idéias, não era eleitor ou elegível, e que os seus interesses eram, rigorosamente, fúteis. Fiquei acabrunhado. Tenho me esforçado para alcançar, ainda que remotamente, o brilho dos meus heróis, e as suas destacadas vidas tem sido uma inspiração e uma meta para mim. Dedico-me com afinco a obter fama e glória, ou, ao menos, a admiração das damas e a inveja dos cavalheiros, e se não pude até hoje conquistar as alturas, nem por isso desdenho de quem lá chegou. Monsieur de Clavas, entretanto, pensava de modo completamente diferente, e quando o inquiri sobre tanto desprendimento, para não dizer uma falta de ambição que beirava ao niilismo, ele sorriu filosoficamente e enumerou pacientemente as razões que vão aduzidas a seguir:

Em primeiro lugar – disse-me ele – quanto mais influente é alguém, mais mal causa aos outros e pouco bem causa a si. Vê bem! Quantas mortes, quanta destruição, quanto desespero causaram os teus heróis? E que ganharam eles com isso? Toma Napoleão, nosso mais famoso contemporâneo, como exemplo. Ou então, se tal imputação a um estadista e conquistador for por de mais óbvia, toma Jesus Cristo! Quanto mal se fez em seu nome, e que bem fez ele a si mesmo?

Vais me dizer que te tornaste ateu? Perguntei já alarmado.

Não há outro caminho para quem reflete – disse-me Clavas – Mas jamais serei um militante do ateísmo pela simples razão de que qualquer militância destacar-me-ia. Minha consciência excessivamente exigente jamais permitiria que nos outros eu insuflasse quaisquer idéias, mesmo que eu as considere boas e produtivas.

Ora – argumentei – o que fazes é apenas eximir-te de responsabilidades. Há que tomar partido, defender ideais!

E que partidos, que ideais seriam esses? – retrucou Clavas – Seria o caso se as pessoas buscassem o bem comum e, como conseqüência inteiramente fortuita, atingissem a notoriedade. Não é isso o que observo. Na verdade dá-se exatamente o contrário. Parte-se em busca da notoriedade a qualquer preço, a qualquer custo, seja lá em que campo for. Além disso, mesmo aqueles poucos que trabalham e criam com honestidade, de maneira desinteressada, frequentemente o fazem sem perceber as conseqüências dos seus atos.

Conseqüências são inevitáveis – Insisti – Todo ato, toda ação desdobra-se e nos é impossível prever o que daí advirá. Acaso preferirias que não existisse o progresso, que nada de novo fosse criado? Recusarias a locomotiva, por exemplo, apenas por que, talvez, alguns cocheiros poderão perder os seus empregos?

Compreendeste-me mal, meu caro – disse-me ele – Eu nada recuso, ao contrário, exulto com as novas descobertas e invenções deste nosso século. Creio mesmo que jamais a humanidade soube tanto de si, do planeta e do cosmo como hoje sabe. Aborrece-me apenas essa busca celerada por posição social e essa frivolidade que afasta cada um daquilo que é realmente importante.

Quê? Exclamei um tanto indignado. Quem estava a escolher colônias ao perfumista?  Quem acabou de confessar a futilidade dos seus objetivos?

Exatamente – replicou Clavas sorrindo – Exatamente. Explico-me. Vê, não pretendo mudar o mundo, este já muda suficientemente rápido por si mesmo. Não pretendo exaltar esta ou aquela utopia e, com isso, exaltar-me a mim mesmo. Ajo de acordo com o meu modelo de vida, mas não o recomendo a outrem. Apenas porque perguntaste, digo que, para mim, só existe uma maneira digna e interessante de viver: Aprender a gostar do maior número de coisas possível e, então, sofisticar ao máximo cada um desses gostos. Se isso te parece fútil, que seja! Para mim é a mais bela e a mais prática das sabedorias. Aprendi a gostar de perfumes, de vinhos, de literatura, de música, de pintura. Aprendi a gostar das ciências, da filosofia, da gastronomia. Dedico-me ao corpo tanto quando ao espírito, se por espírito compreendemos a mente, ou a inteligência, ou o nome que se lhe dê.

Bem – disse-lhe eu – Com este teu hedonismo em que diferes, então, dos frívolos cortesãos, dessa entediada nobreza que vai ao passeio para desfilar os belos arreios das suas carruagens novas?

Ora – respondeu-me – Jamais me entedio. E isso porque, enquanto os teus nobres amigos assim agem em busca do destaque ou da aceitação social, eu procuro apenas o saber. Enquanto teus pares disputam uns com os outros a atenção da dama da moda, do ministro recém empossado ou da soprano favorita do príncipe; enquanto se engalfinham para obter um convite ao sarau da condessa, eu me esmero na arte do afeto, no conhecimento da história, no canto lírico, na literatura… Não cortejo as damas da moda, mas sou um libertino. Não convivo com os políticos, generais, príncipes ou bispos, mas sou um filósofo. Não freqüento saraus, mas sou um artista. Vê? Que fará um artista e filosofo libertino entre os teus amigos? Melhor manter-me longe dessa gente, mesmo porque não seria bem-vindo.

Seja! – retruquei – Se és de fato o filósofo que dizes ser, então estás obrigado, como todo cidadão, a participar do meio social onde vives e a contribuir para o aperfeiçoamento das instituições, da ciência, das artes, coisa que te recusas a fazer…

Eu o faço – disse-me ele – Eu o faço. Porém, à minha maneira. Quiçá se descubram, após a minha morte, umas tantas ou quantas contribuições às matemáticas, à literatura, às artes, isso se alguém as quiser publicar. Porém jamais levarão o meu nome. Outros talvez, delas se apropriem. A mim tanto se me dá.

Não compreendo tanto desapego, tanta modéstia – exasperei-me – Nem mesmo os santos da cristandade são assim despretensiosos.

A comparação não me favorece – riu-se ele – Nada há de mais soberbo que um santo cristão. Mas não te apoquentes. Vivo muito bem e a ninguém incomodo. Não faço sombras, se é que me compreendes. Não sendo ameaça a ninguém, também não sou ameaçado. Todos me têm por insignificante, e de fato eu o sou. Agora, se não te importar, preciso ir-me. Devo uma visita à taberna, onde se recebeu um novo borgonha. Entretanto, terei prazer na tua companhia caso me queiras acompanhar.

Aceitei de bom grado o convite de Monsieur de Clavas e, desde então, nos reaproximamos. Sua companhia, suas idéias e seus hábitos pouco ortodoxos têm sido um verdadeiro oásis em meio à intensa vida social que levo. Termino por confessar aquilo que, talvez, os meus leitores já perceberam. Monsieur de Clavas é pseudônimo, pois que o verdadeiro personagem dessa história jamais terá o seu nome divulgado por mim. Quem quiser, tente adivinhá-lo.

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