Dom Heraldo Armorial

Das muitas pessoas pitorescas, para não dizer esquisitas, que se encontram nos bares da noite de São Paulo, acho que a mais extravagante que já conheci foi Dom Heraldo.  Ninguém nos apresentou. Conhecemo-nos por acaso quando ele, ao passar entre as mesas, esbarrou naquela onde eu estava e derrubou a minha cerveja. Acidentes como esse acontecem. Eu não esperava nada além de algumas desculpas. Mas isso, eu descobriria depois, era pouco para Dom Heraldo. O seu pedido de desculpas foi o discurso mais polido, elegante, constrito e sincero que eu já ouvi, tanto que quase me senti culpado por ele haver entornado o meu copo. Além disso, chamou imediatamente o garçom, verificou a marca da cerveja que eu tomava e ordenou a sua reposição enquanto perguntava se nada havia escorrido pelas minhas roupas. É claro que eu disse que estava tudo bem, que não acontecera nada e coisa e tal. O copo, afinal, estava quase vazio e não houve estrago algum. Pois ele fez questão de ficar ao meu lado, em pé, aguardando que a mesa fosse limpa e que nova garrafa de cerveja me fosse servida. Eu já estava meio constrangido com toda aquela demonstração de cavalheirismo, mas já que ele insistia eu lhe pedi que, ao menos, aguardasse sentado. Ele aceitou, mas antes disso inclinou-se ligeiramente numa vênia marcial e se apresentou usando uma fórmula de outro século, mais ou menos assim:

Cavaleiro, a despeito da infeliz circunstância por mim provocada, fico contente em dar-lhe a conhecer o meu nome. Sou Dom Heraldo Armorial, quinto conde de Casaltierra.

Não, ele não estava brincando. Ficou lá, em posição de sentido, esperando que eu me apresentasse também. Eu já havia notado o seu forte sotaque espanhol e o seu excêntrico modo de se vestir, mas São Paulo é uma cidade cosmopolita onde se encontra de tudo, e até então não havia motivo para alarme. Mesmo assim, achei que o homem só podia ser maluco e me arrependi por ter feito o convite. Agora o melhor era entrar no jogo, pelo menos até o diabo do garçom chegar. Levantei-me e me inclinei como ele havia feito, enquanto procurava me lembrar dos romances de cavalaria que já tinha lido:

Saiba Dom Heraldo, que muito me honra travar conhecimento com tão ilustre cavaleiro, e se o destino quis que nos conhecêssemos de forma tão prosaica, a ele devemos agradecer este feliz encontro. Meu nome é Pedro, mas receio não poder me vangloriar de uma genealogia tão nobre quanto a sua.

A modéstia é a maior das virtudes – respondeu ele com gravidade – mas a julgar pelo brasão que o senhor ostenta, eu diria que os seus ancestrais são fidalgos de nobilíssima estirpe.

Doido de pedra, eu pensei. Aí me dei conta de que, por acaso, eu estava usando uma jaqueta que tinha um brasão bordado do lado esquerdo do peito. O desenho era de uma águia com duas cabeças. O maluco achou que fosse um brasão de família, e não era para menos, já que ele mesmo estava usando um estranhíssimo paletó de veludo preto com um brasão, todo rebuscado, bordado em revelo sobre o bolso. E não era só isso. Tinha um lenço de seda no pescoço, estampado de vermelho e amarelo, e um barrete na cabeça onde se via o mesmo brasão do paletó. Dava para ver, também, que ele usava uma camisa branca com babadinhos, cujos punhos quase lhe cobriam as mãos cheias de anéis.

Bem, Dom Heraldo – eu disse – Posso perguntar o que um fidalgo de Espanha como o senhor está achando da noite de São Paulo?

De Navarra, meu nobre amigo, de Navarra! – ele disse enfático – Sou, de fato, o último descendente de uma antiga linhagem de condes e barões, os Senhores Del Casaltierra, os quais lutaram juntamente com o vosso famoso ancestral, o incomparável Bertrand Du Guesclin, na guerra que o Príncipe Negro promoveu contra a Espanha em favor de Pedro, o cruel.

Uau! O homem estava falando da Guerra dos Cem Anos! E ainda por cima achava que eu era descendente dos antigos aliados dos seus ancestrais!

Neste ponto preciso explicar que, desde menino, tenho a mania de fazer de conta que sou outra pessoa. Faço isso inocentemente, apenas por diversão e jamais para obter qualquer vantagem, mas não resisto em levar adiante um mal entendido qualquer. Foi assim daquela vez. Busquei na memória tudo o que eu sabia da tal guerra e não me fiz de rogado.

– Mas Dom Heraldo – eu disse – Navarra, ao que me lembre, declarou-se neutra no assunto e franqueou a passagem pelos Pirineus às tropas de Eduardo mediante um, digamos, acordo financeiro.

Para que eu fui dizer isso! O homem ficou indignado e me respondeu muito seriamente:
– Dom Pedro, embora possa parecer que toda a corte do pusilânime Carlos tenha compactuado com as sórdidas maquinações daquele monarca, algumas famílias nobres não aceitaram tamanha vileza e mantiveram sua aliança com o Príncipe de Astúrias. Eu, digo, meu ancestral, foi um dos que mantiveram a honra de Navarra lutando contra a invasão dos ingleses e seus pérfidos aliados gascões. Porém, se minhas palavras não o convencem, estarei à sua disposição no local, dia e hora que melhor lhe aprouverem, e com as armas que o senhor escolher.

Cazzo! A figura estava me desafiando para um duelo! Isso em plena São Paulo do século vinte e um, num bar da Vila Mariana! Só a cerveja trapista que eu estava tomando parecia combinar com essa história toda. Achei melhor acabar logo com a coisa antes de me ver enfrentando a espada de um fugitivo do século quatorze.

– Paz, Dom Heraldo – falei – Não tenho a menor dúvida sobre a veracidade das suas palavras e não tive a intenção de ofendê-lo ou à sua nobre família.

– Pois se é assim – ele retrucou – que não haja ressentimentos entre nós. Afinal, não é sempre que se pode conversar pacificamente com um Du Guesclin. Se o senhor me permite, Dom Pedro – continuou ele – Mandarei trazer para cá a minha bebida e brindaremos ao feliz encontro de dois antigos aliados.

Nesse momento o garçom vinha chegando com a minha cerveja e Dom Heraldo pediu que sua mesa fosse transferida para a minha. Logo o garçom trouxe a sua garrafa de vinho e um novo copo, além de uma capa de veludo verde musgo com adornos prateados, que foi colocada cuidadosamente sobre uma cadeira vazia ao lado do fidalgo. Levantamos os nossos copos, e Dom Heraldo pronunciou o seu brinde da maneira mais bizarra possível.

– Às nossas espadas – ele bradou – que elas continuem juntas pela honra dos nossos soberanos e pela glória de Cristo!

– E pelo amor das nossas damas! – eu acrescentei – já completamente tomado pelo espírito da coisa.

Ele entornou o seu copo tão valentemente que algumas gotas de vinho escorreram pela sua barba em bico, já grisalha, o que o obrigou a recorrer a um guardanapo. Seus olhos acinzentados estavam brilhantes e o seu rosto fino e anguloso, a lá Dom Quixote, estava ligeiramente corado.

Saiba Dom Pedro – ele continuou – Que de há muito não tenho o prazer de compartilhar a mesa de um nobre cavaleiro. Tenho estado demasiado tempo distante dos meus pares, e embora aqui nesta terra possa ser encontrada gente digna e cortês, confesso que sinto falta do convívio dos homens do meu tempo…

Foi então que ele aproximou a sua cadeira da minha e falou num tom baixo e confessional: – Dom Pedro! Estou exilado nesta cidade, nesta época. Fui vítima, creia-me, das pérfidas maquinações de um mago sarraceno enquanto combatia ao lado dos príncipes de Castela. É uma estranha história, e desde que aqui cheguei jamais encontrei alguém a quem pudesse contá-la. Todavia, vejo em si um igual, um nobre e audaz cavaleiro. Somente a si me atreveria relatar as minhas desventuras, caso isso não o desagrade.

Até então eu tinha levado a coisa na brincadeira, mas Dom Heraldo disse aquilo de maneira tão sincera e nostálgica que comecei a ficar preocupado. Percebi que havia método na sua loucura e que ele sofria verdadeiramente com as suas alucinações. Além do mais o homem era extremamente educado e pensei que não me custava nada ouvir a sua história absurda, fosse qual fosse.

Dom Heraldo – respondi – Muito me honra a distinção que o senhor me faz. Terei imenso prazer em ouvi-lo. De fato também eu, por vezes, sinto-me deslocado nesta época em que vivemos e mais de uma vez desejei estar em outro lugar e em outro tempo.

Ele levou ao pé da letra o que eu disse. Sorriu e assentiu com a cabeça, como se compreendesse que também eu havia sido vítima de algum tipo de sortilégio. Então, depois de tomar outro gole de vinho, começou uma longa história que não vou reproduzir aqui, tal a barafunda de nomes e descrições de assaltos e cargas de cavalaria. Por fim ele concluiu:

– Não vou importuná-lo com mais detalhes. Tudo o que sei é que finalmente me defrontei com a obscura presença de Al Kadil, o necromante, a cujos asseclas logramos vitória pela espada. Vimo-nos frente a frente quando o encurralei num ermo. Meus companheiros se haviam dispersado e ele, ferido na espádua por uma flecha, inspirou-me compaixão. Apeei, pois, resolvido a ampará-lo. Quando me aproximei percebi que o ferimento era mortal, e que apenas poderia minimizar seu sofrimento. Busquei em minha capa por um frasco de conhaque e o coloquei entre os seus lábios, como já o havia feito com muitos dos meus próprios camaradas em situação semelhante. Ele, entretanto, virou o rosto repulsivamente e, colérico, colocou sua mão sobre os meus olhos. Senti imediatamente que perdia os sentidos e, de fato, mergulhei no esquecimento. Quando dei por mim estava num catre desconhecido, cercado por pessoas estranhas. Elas alegam serem meus parentes, meus filhos, meus netos. Tratam-me com extremo desvelo e eu lhes sou grato. Custou-me perceber que se haviam passado centenas de anos desde meu fatídico encontro, e que deveria conformar-me com o novo mundo a que fora arremessado. Só a custo, entretanto, pude vestir-me conforme manda minha posição, pois que relutaram muito em dar-me meus trajes, e tive que os descrever minuciosamente para obtê-los. O pior, entretanto, já se foi. Creia-me, Dom Pedro, que me vi aturdido por esta época e esta cidade, onde tudo é incompreensível e novo. Hoje, porém, sinto-me quase como se pertencesse a este lugar. Agora, entretanto, devo deixá-lo. Não quero preocupar as boas almas que julgam ser minha família. Dom Pedro, foi imenso o prazer que tive em tão nobre companhia, e se acaso lhe aprouver relatar a sua própria história, saiba que terá em mim um ouvinte igualmente atento e compreensivo.

Fiz as mesuras que achei que deveria e nos cumprimentamos com um forte aperto de mãos. Lá se foi Dom Heraldo Armorial. Quando, alguns dias depois, perguntei ao garçom que nos havia servido se vira Dom Heraldo novamente, o rapaz se fez de rogado. Não se lembrava de nenhum freguês como aquele.

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  1. É mesmo a sua cara !!!
    Gostei demais. Você vai dar continuidade?
    Beijos.

    • Hei! Obrigado, Fô! Que bom que você gostou! Ainda não sei se vou esticar esse conto, mas vou postar outro, bem maior, ambientado na idade média. É que eu tenho uma queda por essa época, né… Bjs.

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