O poeta enfermeiro

O bom da vida boêmia é conhecer gente nova. Por mais que você esteja com o seu acompanhante, com os seus amigos, a sua turma, sempre acaba aparecendo alguém interessante. Foi assim que conheci o Poeta. Poetas, todos sabem, gostam de bar, e não é difícil encontrar um deles em alguma mesa, ou até mesmo andando entre elas na tentativa de divulgar os seus poemas.

Eu freqüentava um bar na Vila Mariana que exercia uma atração especial sobre os poetas neófitos. Sempre aparecia algum garoto oferecendo o livrinho que mandara imprimir às próprias custas. Alguns eram tímidos, outros salientes, mas sempre me davam a impressão de que queriam, na verdade, apenas vender o livreto. Posso parecer romântico, mas para mim a poesia não combina com comércio. Fico um pouco constrangido quando sou abordado por um poeta que mal disfarça a sua vocação comercial, e invariavelmente recuso a oferta, principalmente quando a poesia é pretensiosa.

Não foi assim, entretanto, com o Poeta. Para começar o rapaz não tinha nada de jovem. Devia ter uns quarenta anos e se vestia de maneira convencional. Também não queria vender nada, como descobri depois. Ele se aproximou da mesa onde eu estava com alguns amigos, pediu desculpas pela intromissão e gentilmente se ofereceu para ler um dos seus poemas. Não trazia nenhum livro, mas tinha uma pasta com folhas impressas em computador, e distribuiu uma cópia da poesia que iria declamar a cada um de nós. Como o poema era curto ninguém se opôs. O rapaz tinha ótima dicção e escandia cada palavra. Aliás, o poema me pareceu meio sem pé nem cabeça, embora em poesia isso não seja exatamente um requisito. As palavras que ele usava, entretanto, eram incomuns, como se buscadas em algum almanaque do século dezenove. Quando ele terminou e já se dispunha a ir embora, perguntei qual o motivo daquele, digamos, estilo pernóstico. Foi então que ele confessou com toda a simplicidade que não era bem poeta, mas um colecionador de palavras. E como eu insistisse, ele foi contando como começara a sua “coleção”.

– No começo era só curiosidade. Sempre li muito e topava com palavras que eu não conhecia. Pegava o dicionário e descobria o significado. Então, algumas palavras que eu encontrava me prendiam pela sonoridade: miçanga, alquimia, claxon…

– Claxon?

– É, claxon. Buzina.

– Mas isso é antigo, hein?

– Chegou aqui com os primeiros carros.

– Mas então?

– Bom, fui percebendo que as palavras não são todas iguais: Parece que umas sempre existiram, enquanto outras têm vida curta. Nascem, florescem e logo caem no esquecimento. Sabe-se lá há quanto tempo existem palavras como mesa, cerveja, prato. Mas outras, coitadas, têm vida efêmera. Aliás, esta é outra palavra de que eu gosto: Efêmera! Por essa época li Peter Pan. Eu devia ter uns nove anos e fiquei impressionado com aquela história das fadas morrerem quando não se acredita mais nelas. Lembram? Fiquei com a impressão de que as palavras são como as fadas. Se ninguém mais fala, elas morrem. Eu escolhia palavras que pouca gente usa e saía repetindo na escola. Não deu muito certo, porque os meus colegas não entendiam e ainda me enchiam o saco. Passei a colecionar escondido. Repetia para mim mesmo as palavras de que gostava e que eram pouco comuns. Um dia eu estava num bar, assim como vocês estão agora, e um rapaz insistiu em vender o seu livro de poesias. As palavras que ele usava não eram interessantes, parece que ele estava mais preocupado com o conteúdo do que com a forma. Tive um estalo. Pensei: Vou fazer poesia! O que eu disser não vai importar muito, desde que eu possa colocar palavras moribundas no ouvido dos outros, para que elas revivam…  E é isso o que eu faço à noite. Vou pelos bares lendo as minhas palavras disfarçadas de poesia. Durante o dia trabalho como atendente de enfermagem em um hospital. Então, levo vida dupla, o que é muito instigante… Quanto a ser poeta, nada está mais longe.

– Para mim, você é que é poeta – disse uma das minhas amigas – Querer salvar as palavras é muito poético.

– Pode ser, fico lisonjeado, mas não é essa a intenção. Acho que sou mais um cuidador de palavras. Socorro as velhinhas, de quem ninguém mais lembra. Falo freqüentemente bodoque, filó, mequetrefe… Poupo as desgastadas e procuro recuperar o seu sentido original. Divulgo as exóticas, que por preconceito são evitadas. Acolho as novidades, os estrangeirismos, pois sei que elas se sentem deslocadas em terra estranha. Alimento os regionalismos… Sei que é uma luta inglória, mas afinal, cada louco com sua mania.

– Nós vamos ajudar você – disse minha amiga toda comovida – Pegue outra das suas poesias, uma que tenha muitas palavras incomuns, e vamos todos ler juntos, em voz alta.

Foi esse o poema que ele nos deu para ler. Tenho minha cópia até hoje:

Está o Mestre sentado

À sombra da alfarrobeira,

Os alfarrábios ao lado.

Com seu estilo de alpaca,

(Das alparcas já descalço),

Algaravias decalca

Sobre a brancura do almaço.

Escapam-lhe da algibeira,

Sobre a alfombra de alfavaca,

Algumas cartas em leque.

Quem o vê, por alfaqueque,

Certamente irá tomá-lo.

Tranqüilo, o seu cavalo,

Pasta a almargem entre os abetos,

E dos alforjes do baio,

Despontam os alfabetos.

Em estado de alforria está o Mestre sentado.

Calado, sereno e quieto.

Confesso que, além de remoçarmos palavras que alguns de nós jamais havíamos pronunciado, esse poema nos deu uma estranha paz, e mesmo depois que o rapaz foi embora ficamos ali, cismando. Por isso, quer ele goste ou não, nós passamos a chamá-lo de O Poeta.

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  1. coisa linda isso…também somos colecionador de palavras, né não? vernáculos, eu diria… bjks

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