O Último Bar

 No outono de setenta e sete eu estava viajando com um amigo pela Patagônia. Não vou entrar em pormenores, já que este não pretende ser um relato de viagem. Porém, para contar o episódio que de fato interessa é preciso lembrar que a Patagônia é um lugar imenso e pouco povoado. Sua capital, Ushuaia, ainda hoje é chamada de “A Cidade do Fim do Mundo”.

Entretanto não paramos em Ushuaia, que fica na parte argentina da Terra do Fogo, mas fomos ainda mais ao sul, até uma vila chilena que à época era chamada Navarino e hoje mudou o nome para Cabo de Hornos. A vila de Navarino fica na ilha de mesmo nome, e não foi nada fácil chegar lá. O lugar é considerado o povoado mais meridional do mundo, ou seja, é realmente remoto! Tirante alguns aventureiros, quase ninguém se atrevia a visitar Navarino naquela época. Nós ficamos hospedados num pequeno alojamento com a indispensável calefação e desjejum razoável, do qual saímos numa manhã ensolarada, rara e bela, para explorar o deserto que se estende mais ao sul em direção às montanhas.

Fazia um frio de setecentos diabos. Meu amigo se dizia conhecedor da região, mas se eu tivesse pensado um pouco concluiria que ninguém conhece aquela parte do deserto patagônio, nem mesmo quem mora lá. Depois de duas horas de caminhada já estávamos rigorosamente perdidos. Para não dar o braço a torcer o meu amigo dizia que as trilhas haviam mudado e que ele estivera ali havia muito tempo. Bobagem. A paisagem desolada e agreste era sempre a mesma. Entrávamos e saíamos das veredas, subíamos e descíamos e tudo parecia igualmente inóspito e hostil.

Naquele tempo ainda não havia celular ou GPS. Também não tínhamos levado nenhuma provisão além de água, pois pretendíamos voltar ao povoado antes do almoço. Depois de horas vagando desorientados, resolvemos achar um lugar para descansar e reavaliar a situação com calma. Era quase meio-dia, mas o vento frio incomodava muito e nos abrigamos num desvão rochoso que encontramos. Comentei com o meu amigo o quanto seria bem vinda uma boa dose de conhaque. Ele, olhando por cima do meu ombro, disse displicentemente: – Boa idéia! Vamos até aquele bar ali.

Eu sabia que era brincadeira, mas me voltei mecanicamente na direção em que ele apontou. Fiquei chocado quando constatei que havia, mesmo, um bar a uns trinta metros de nós.

Corremos para ele. O bar era uma construção longa, baixa e pesada feita de pedras brutas sobrepostas. A parte de trás se apoiava no próprio paredão da montanha, de modo que todo o edifício parecia mais uma casamata que um bar. De longe era quase impossível distingui-lo das rochas que o circundavam. No alto da porta uma tabuleta de madeira carcomida informava: Ultima Thule Pub.

– Última Thule, heim!? Eu exclamei enquanto entrávamos. – Não consigo imaginar nome melhor.

O interior do bar estava aquecido e aconchegante, e essa sensação era reforçada pela luz amarela das arandelas. As paredes, que de fora pareciam pouco hospitaleiras, eram revestidas de lambris de madeira avermelhada. A mobília polida pelo uso e a decoração do século dezenove diziam que o bar era bem antigo. Um balcão de mogno maciço se estendia ao longo do comprido salão, e uma pilha de barris emoldurava uma janela na distante parede oposta.

Sentamos. Eu não conseguia imaginar quem se daria ao trabalho de frequentar aquele lugar no meio do nada, mas era evidente que o Ultima Thule não ficava às moscas. Naquele momento, entretanto, não havia ninguém. Cobrei explicações do meu amigo! Se ele já conhecia o bar, como quis dar a entender, porque fingira que estávamos perdidos? Mas o rapaz deixara a displicência de lado e parecia tão surpreso quanto eu.

– Desculpe aí – Ele me disse – Nunca estive neste fim de mundo antes e não faço ideia de como este bar veio parar aqui. Estou tão intrigado quanto você.

Fui até o balcão na esperança de encontrar o barman. Na outra ponta, atrás de uma reluzente chopeira, um homem corpulento, ruivo e de meia idade lavava tranquilamente alguns copos. Acenei para ele e voltei à mesa. Comentei com o meu amigo que seria melhor comer alguma coisa e depois perguntar como poderíamos voltar à Vila. O homem nos viu e aproximou-se, mas não saiu de trás do balcão. Meu amigo comentou que o cara levava mesmo a sério essa coisa de Pub, onde o cliente é sempre atendido no balcão, e foi até ele pedir alguma coisa. Daí a pouco me chamou.

– Vem cá! O cara só fala inglês e eu não estou entendendo direito. Parece que ele não quer atender a gente.

– Como só fala inglês? – Eu perguntei admirado enquanto ia até lá. Era verdade. O sujeito falava um inglês arrevesado. Com dificuldade expliquei que estávamos perdidos e que só queríamos comer alguma coisa quente e tomar uma bebida forte antes de voltarmos para a Vila.

– Perdidos, não é? – Falou o homem. Ainda estamos fechados. Abrimos ao meio-dia e ainda faltam dez minutos. Como é que vocês entraram?

– A porta estava destrancada – Eu disse.

– É claro que não estava! – disse ele com ênfase. – Fiquei defronte a ela o tempo todo. Ninguém passou por aquela porta!

– Como não! – Exclamei – Quando entramos você estava lá na outra ponta do balcão.

– Você está brincando comigo, rapaz? – Disse o homem, fingindo irritação. É justamente lá que fica a porta!

Ele tinha razão! Felizmente o sujeito era bem humorado. Bem defronte ao lugar onde ele estivera lavando copos havia uma porta dupla, de vidro fosco, emoldurada por barris e que eu julgara ser uma janela. Imediatamente me virei para ver a outra porta, por onde havíamos entrado e que ficava a poucos passos da mesa que estávamos ocupando.

– Foi por lá que entramos! A porta está destrancada, pode ir olhar! Nós estávamos perdidos e com frio, não sabíamos que o bar estava fechado. Além disso, não tem muitos outros bares aqui em cabo Horn, não é mesmo?

O homem não respondeu. Saiu de trás do balcão e foi até a porta que eu indicara. Sorrindo a abriu, num gesto teatral. Ao invés da paisagem desolada da Patagônia o que vimos foi um compartimento escuro. Logo eu e o meu amigo estávamos ao lado do barman, que parecia estar achando aquilo muito divertido. Ele acendeu a luz e nos mostrou um quarto mobiliado com uma cama de campanha, uma escrivaninha antiga e um velho baú. Uma estante abrigava instrumentos náuticos obsoletos, embora cuidadosamente polidos. Mapas antigos e arpões de caçar baleia estavam pendurados nas paredes. Um desses mapas, o maior e mais detalhado, ocupava toda a parede do fundo e representava a Terra do Fogo. Um dardo fora cravado bem na ilha de Navarino.

– Cabo Horn? – Disse ele, surpreso. – Vejam. Aqui neste quarto morou James O´Nolan, capitão do baleeiro Goliah. O Capitão O´Nolan era um tipo fechado, de poucos amigos, que preferia o isolamento. Dizem que reproduziu aqui, neste quarto, o ambiente da sua cabine no Goliah, e quando estava em terra raramente saia daqui. Ele era fascinado pela Terra do Fogo, e numa das suas viagens perdeu-se por lá e nunca mais voltou. O dono deste pub é seu neto. Ele herdou o bar do pai, que o herdou do velho O´Nolan, e faz questão de manter o quarto do avô intacto. Vocês viram o nome do bar quando entraram? Pois então, parece que Ultima Thule tem a ver com a paixão do Capitão pela Terra do Fogo.

Quanto mais eu ouvia, mas atônito ficava. Meu amigo caiu sentado na cadeira mais próxima, estupefato.

– Mas a porta era aqui! – Eu disse. – Foi por aqui que entramos!

O homem apenas abanou a cabeça e saiu dali para abrir o bar. Quando voltou, trazia consigo dois pints de Guinness e um sorriso no rosto.

– Bebam – Ele disse. – Qualquer um que entra num bar sem ser visto e inventa uma história como essa só para beber mais cedo, merece uma cerveja.

Eu ainda estava em choque. Tinha certeza que a porta era aquela, mas talvez houvesse outra semelhante, disfarçada nos lambris de madeira, e o barman estava apenas se divertindo conosco. Peguei a cerveja e dei um grande gole. O barman continuou:

– Acho que vocês estão mesmo perdidos! Vocês são italianos, não é? Devem ser! Mas não se preocupem. Apenas digam onde estão hospedados. Não há hotel aqui em Dublin que eu não conheça.

 

 

 

 

 

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