Uma questão de tempo…

 Não tenho ido muito a bares ultimamente, pelo menos não com a mesma frequência com que costumava ir. Acontece que eu mudei, as coisas mudaram, os hábitos mudaram…Panta rei, diria o bom e velho Heráclito de Éfeso, tudo muda!

Até mesmo os bares mudaram! Outro dia fui a um bar que me fez repensar o conceito mesmo desse tipo de estabelecimento. Era um lugar no Itaim Bibi, um bairro de classe média-alta com vocação para bons restaurantes e bons bares. Pois o tal bar tinha um salão enorme, embora todo o espaço estivesse tomado por mesinhas, umas bem junto das outras, e todas elas estivessem atulhadas de gente. A decoração era modernosa e a música eletrônica era reproduzida em altíssimo volume. Fiquei numa dessas mesas, espremido entre as cadeiras vizinhas, tentando desesperadamente compreender o que se dizia à minha volta. O solícito garçom, que finalmente viu meus insistentes acenos, ofereceu-me uma carta de bebidas medíocre da qual escolhi com relutância uma cerveja convencional (era o que havia) e uma tábua de frios para acompanhar. Tirante os preços bem salgados, nada havia no cardápio que chamasse a atenção. Já que não podia conversar, pois para mim conversa implica em algo mais do que sorrir idiotamente para a pessoa à frente, resolvi pensar o que é, afinal, um bar.

Ponderei que um bar se caracteriza por ser um espaço de convivência onde se vai para encontrar outras pessoas e supostamente conversar com elas enquanto se toma uma bebida acompanhada de algum tipo de tira-gosto. Sei que os bares não se limitam a isso. Admito que alguns bares tenham lá a sua pequena pista de dança, talvez uma banda “cover” com repertório eclético, mas cujo volume sonoro não incomode quem está mais afastado, trocando impressões, confidências, ou apenas conversando consigo mesmo enquanto toma o seu uísque solitário. Também não recrimino os bares temáticos, desses que se especializam em um tipo de ambiente, de público, de música, de tribo et caterva, desde que mantenham a proposta de serem apenas bares.

Reconheço que muitos estabelecimentos dedicados ao entretenimento se assemelham ao bar, e nesses tempos de mixagem geral talvez seja preciso recorrer à exclusão para recortar a sua definição. Vejamos, antigamente “Pub” era bar à moda inglesa ou irlandesa, mas agora parece que não é mais, salvo honrosas exceções. Bar não é restaurante, embora em muitos casos a distinção seja bastante difícil de ser feita. Bar não é boite, não é danceteria, ou seja lá o nome que se dê a isso hoje, não é lupanar, zona ou puteiro, não é “rave”, não é casa de shows ou de espetáculos musicais.

Ao pensar nisso me ocorreu perguntar de onde provém, afinal, esse abuso da música nos bares, e não apenas neles. Por que essa insistência em colocar “trilha sonora” em tudo do que é lugar? Serei apenas eu a reparar que as pessoas querem estar sempre plugadas num fone de ouvido, com os seus rádios, celulares e “players” de todos os tipos instalados em todos os lugares, do carro ao ônibus, da casa à escola, do trabalho ao boteco? Chego a pensar que esse desejo permanente de “ouvir um som” está ligado à necessidade de preencher o vazio existente entre as orelhas, ou então ao medo de ouvir a si mesmo. O silêncio conduz à reflexão, e aí é que está o perigo… Seja como for, no caso dos bares acho que se está a fazer confusão entre eles e as casas de espetáculo, ou então às famosas “baladas”.

Fiz questão de deixar a balada para o fim, pois muitos bons bares infelizmente se transformaram nelas, ou com elas se confundem. Para quem nunca foi, baladas são ambientes muito semelhantes aos bares com música ao vivo, porém divergem radicalmente quanto ao objetivo, pois a balada é onde a juventude vai à caça. Substitutivo mais atrevido do flerte, a caça é um interessante comportamento de côrte que consiste em verificar com quantas pessoas se manterá interações íntimas e fugazes até o fim da noite (com muito troca de saliva e de carícias ousadas) ou até que eventualmente se escolha a parceira ou parceiro anônimo com o qual se aprofundará a questão. Naturalmente nem todo mundo chega a isso, mas para quem persiste o caso costuma terminar num motel, onde a troca de outros fluídos, além da baba, é feita mais confortavelmente. 

Enquanto eu pensava em tudo isso, motivado desde o princípio pelo rugir monocórdio da música eletrônica, esta se foi distanciando, distanciando até virar um ruído de fundo para, de repente, parar por completo. Fiquei aliviado quando me dei conta de que alguém desligara o som, mas me assustei quando percebi que, de fato, fazia um silêncio gritante. Ou seja, não apenas a música parara, todo o ruído que se espera ouvir num bar lotado cessara completamente!

Não, eu não estava surdo. Podia ouvir a mim mesmo, quero dizer, esses pequenos ruídos corporais que só notamos em ambiente silencioso, como quando se está num velório, por exemplo, e se ouve o ranger dos próprios dentes. Puxa, essa imagem ficou tétrica, mas foi isso mesmo o que aconteceu. As pessoas à minha volta, entretanto, além de silentes estavam também imóveis, como imóvel estava todo o bar. Os garçons posavam em atitudes atléticas, equilibrando bandejas imponderáveis. Bebidas eram vertidas interminavelmente em copos que nunca se enchiam. Tive certeza de que seria possível ouvir o adejar das asas de uma mariposa, se para alguma delas fosse permitido esvoejar pelo ar congelado. Sim, pois percebi num átimo, menos por perspicácia que por experiência cinéfila, que o tempo parara. O tema é recorrente, todo mundo já viu um filme em que a imagem congela num estalar de dedos. Se estivesse apenas sonhando eu teria sorrido da minha falta de imaginação, mas a coisa era muito real para ser levada na brincadeira.

Pensei em sacudir minha amiga ao meu lado, mas tive medo de machucá-la. Desconheço as consequências de se alterar as coisas numa situação dessas, quer dizer, quando tudo está paralisado no tempo. Obviamente avaliei a hipótese de que eu mesmo poderia estar num ritmo alucinantemente rápido, de modo que tudo me pareceria estagnado. Para mim daria no mesmo, fosse eu que estivesse muito depressa ou o mundo muito devagar, mas para o bem da vida no planeta seria melhor que o problema fosse apenas meu! Torci pela segunda hipótese enquanto tentava me levantar. Não consegui. A cadeira que incomodamente me acomodava estava entalada entre outras, de modo que eu teria que pedir licença ao pessoal da mesa de trás para sair. Esforcei-me, de onde eu estava, para vislumbrar qualquer possível movimento. Olhei ansiosamente através das largas paredes de vidro do bar e percebi, apesar da distância e da miopia, que lá fora a vida transcorria, ou devo dizer se movia, normalmente.

Fiquei aliviado por um momento, para logo em seguida me perguntar, sobressaltado: E se o tempo ficar congelado indefinidamente no bar? Será que alguém virá nos resgatar? Não tive que me preocupar por muito tempo porque ele, o tempo, resolveu retornar e, malgrado meu, trazer consigo toda a insuportável barulheira. Tudo voltou ao normal, se pudermos considerar normal que centenas de pessoas concordem voluntariamente em permanecer num lugar desconfortável, chato, pretensioso, e fiquem sem fazer nada e impedidas de conversar com os amigos enquanto são submetidas à mais brutal tortura auditiva. Minha amiga, notando o meu olhar distante, me perguntou aos gritos por que eu parecia tão alheio. Respondi, fazendo concha com as mãos, que no início eu estranhara o ambiente e o volume da música, mas que então tudo já estava bem, fora apenas uma questão de tempo.

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