O Dia de Pepe

Meu nome de batismo jamais alguém o soube, ou todos já o esqueceram. Chamam-me Pepe. Pepe, o Truão.  Também para mim sou apenas Pepe, e já não saberia sê-lo de outro modo. Escrevo de uma minúscula cela de convento. Também pequena é a vila que vislumbro da minha janela e insignificante o feudo que a abriga.  Sou modesto, e modesto é o que me circunda. Mas o próprio ato de escrever é, para mim, a mais monumental das façanhas. Sim, pois nasci tão pobre que meu único patrimônio era ser eu livre. Este é já um grande começo, embora também seja, na maioria dos casos, uma única finalidade. Meu pai disso se orgulhava e, contudo, mal podia prover de alimento as bocas que se multiplicavam na família. Fui dado, ainda menino, como aprendiz a um pelotiqueiro que passara com sua trupe pela nossa vila. Nunca mais soube de meus pais ou dos meus muitos irmãos e irmãs. Não era o filho mais velho nem o mais novo. Era apenas uma criança suja e magra, sempre com frio e sempre com fome, entre tantas outras crianças magras, sujas, maltrapilhas e famintas. Por isso, talvez, tenha ido eu de bom grado. Não reclamei, não chorei, não tive saudades…

Abelardo de Fures foi o meu mestre e era, àquele tempo, o chefe da companhia de saltimbancos. Uma vez lhe perguntei sobre o motivo dele ter-me escolhido dentre tantas crianças. Eras, disse-me ele, apenas um pirralho entre pirralhos. Precisava eu de um aprendiz e tu te destacaste dos outros pela atenção com que nos olhava e pela persistência com que nos seguia.

Atenção e persistência, e também uma grande curiosidade por tudo, é isso o que me tem destacado no mundo e, também a isso, devo tudo o que pude do mundo obter.

Escrevo não para contar minha história, embora esta seja tão interessante como podem ser as vidas dos cavaleiros, dos reis ou dos santos.  Diz-se que todo homem tem, em sua existência, um dia para o qual toda a sua vida converge e que, tendo-o vivido, este único dia a justifica ou a condena. É apenas deste dia que aqui falarei, e pretendo fazê-lo a meu modo, pois dele me lembro em cada detalhe.

Era véspera do dia de Santo Ildefonso e eu respondia a uma pergunta ociosa de Bertrand.

– Equilíbrio. Equi – Libra. Bem, “equi” quer dizer igual, de mesmo valor, de mesmo tamanho. Libra é balança. Então a palavra equilibrar significa manter os braços da balança na mesma altura. Entendeu? Fácil dizer, difícil fazer. Quando subo na corda e balanço os braços para manter o equilíbrio, é isso o que faço. Eu mesmo viro uma balança. Ninguém se equilibra parado. Equilíbrio é movimento: Um pouco para lá, um pouco para cá, compensa daqui, compensa de lá. Equilibrar  é compensar!  E compensar, o que é? Vamos, esforça-te um pouco. Com pensar. Com penso. Penso é peso. Compensar é colocar pesos em um dos pratos da balança, para que ela se mantenha em equilíbrio enquanto pesa aquilo que se quer pesar!  Pensar, pensar. Se “penso” é peso, pensar é pesar! Quando penso, comparo as coisas, como faz uma balança!  Esses pensamentos são complicados para ti, não são?

Está bem, está bem… sei que tudo isso causa enfado. Acho que bebi um pouco a mais, meu caro Bertrand.  Além disso, como sabes, amanhã é o dia. Amanhã é o grande dia. Saltimbanco, pelotiqueiro, histrião, arlequim, bufo, equilibrista. Estou nessa vida há mais de trinta anos, mas nunca me acostumei, essa é que é a verdade. De há muito anseio por uma pequena quinta, um pouco de sossego.  Amanhã é o dia do desafio do Barão. Se conseguir ganho o suficiente para nunca mais ter que ralar a sola dos pés numa corda de cânhamo. Se não conseguir, bem, a queda é suficiente para matar um homem. Calma, meu amigo. Quando o Barão fez o seu tradicional desafio do dia de Santo Ildefonso todos estranharam, como tu, quando eu disse que só aceitaria se fosse para cruzar o pátio a partir dos torreões e não das ameias da murada, como sempre foi feito. Todo mundo estranhou e aplaudiu, claro, porque a altura é muito maior, embora a distância entre os torreões seja menor, em pelo menos um quarto, que a distância entre as ameias. O Barão, então, só para não se sentir diminuído na frente dos burgueses reunidos na taberna, disse que duplicaria a bolsa se eu atravessasse, mas que não daria nada a mim ou à minha família se eu caísse, nem um pinto de cobre. Muitos disseram, depois que aceitei a aposta e as condições, que ou eu estava ficando senil ou tinha mesmo o miolo mole. Eu respondi: É boa! Já se viu um bufão ter miolos? Mas no fundo não fiz isso à toa. É preciso compreender a natureza humana e também os próprios limites.

 Todos, inclusive o Barão, pensam que sou um tolo, mal sabem que já vi  muita coisa, que aprendi a ler, que já li mais que todos eles juntos, que sei fazer contas e medir distâncias com os olhos. Acham, na sua ignorância, que é mais difícil atravessar um lugar alto que um mais baixo, mesmo que este tenha um trajeto menor a ser vencido. A altura impressiona, sei disso. Mas é aí que está ! Qual a altura da murada, Bertrand? Uns quinze côvados… É quase certo que uma queda dessas sobre as lajes de pedra do pátio aleije um homem, mas dificilmente o mata. Já a altura dos torreões é de uns cinqüenta e cinco côvados ou mais. Uma queda é morte certa. Então achas que fiquei louco, pois não? Explico-me. Já faz tempo que o velho Abelardo de Fures consegui atravessar pelas ameias da murada. Mais de vinte anos. Ele ganhou um bom dinheiro, o patife, pena que não usufruiu dele. Aquela cigana vadia depenou o coitado em duas noites de bebedeira. De lá para cá, apenas seis realizaram a mesma proeza. Dos outros vinte e dois que tentaram, alguns morreram na queda e muitos ficaram entrevados, embora suas famílias tenham recebido um décimo da bolsa. O último deles, se bem me lembro, levou uma vida de vegetal e só conseguia mexer a cabeça, até que a sua mulher veio avisar ao cura que o marido tinha morrido. Uma semana depois foi morar com o moleiro. Queres saber porque, afinal de contas, só agora resolvi tentar a travessia, e da maneira mais difícil? Pois bem. Sabes que estive viajando de feira em feira nos últimos vinte anos, apenas para aqui não tornar. Sei que poderia ter vindo ao castelo todos os anos, mas sempre o evitei. Temia que a tentação fosse maior que a minha covardia e eu acabasse por aceitar a oferta do Barão. Ora, eu ainda não estava preparado para isso, mas jamais tirei da cabeça a idéia de tentar a travessia. Vê, esse velho Lorde ficou famoso com o seu desafio e o repete ano após ano, com recompensas cada vez maiores, principalmente porque os últimos pretendentes não lograram êxito na empreitada. Com isso atrai gente para a feira e ganha com as transações, ganha com os impostos, ganha com as taxas, ganha com os pedágios, em tudo ganha o bom Barão, apenas porque seu espetáculo atrai multidões.  Agora observa: Há dois anos ninguém se apresenta para a travessia. O Barão resolveu acumular o valor das bolsas, o que dá uma pequena fortuna. Além disso, estou de fato ficando velho. Velho demais para ganhar a vida andando na corda ou fazendo piruetas, enquanto tocas o teu alaúde. O bom Abelardo de Fures, meu mestre, morreu pobre em um catre, aleijado e só, porque não teve outra escolha a não ser trabalhar na velhice, até cair naquela fatídica feira no dia de Santo Alberto Magno. Pois esta é a minha estratégia, ouve bem. É certo que não pretendo acabar como o meu mestre e é certo também que em breve não terei a mão tão firme e o pé tão lesto. O que me restará? Arrisco, com o Barão, o tudo ou nada. Daí o meu atrevimento e minha proposta que a todos espantou. Creio ter maiores chances de atravessar o vão entre os torreões por ser este menos extenso que o das muradas. Mais importante, entretanto, é que se cair, morro, não fico entrevado como tantos. Vês? Só tenho a ganhar. Não te apoquentes, és jovem e aprendeste bastante bem o ofício que te ensinei. Tocas com graça o alaúde e a cítara, danças e cantas, e mesmo na corda vais cada vez melhor. Um dia contarás essa história ao teu próprio aprendiz e dirás: O velho Pepe arriscou e não se arrependeu!

 Assim falava eu para o meu jovem companheiro Bertrand enquanto entornava um pichel de vinho barato. Olhei pela taberna ao redor, já quase vazia àquela hora. Bertrand estava sentado num tamborete de três pernas que se afundavam no chão mole, as próprias pernas estiradas e o cotovelo apoiado à mesa rústica. Parecia não prestar muita atenção ao que eu dizia, pois os seus olhos estavam fixos numa velha nódoa sobre a tábua imunda.

– Não ouviste o que te disse? Perguntei.

– Sim, ouvi. Acho mesmo que te tornaste um velho maluco. Vês essa mancha sobre a mesa?

– Que mancha? Esta?

– Sim, esta. Não vês? Ela se parece com a aquela figura da morte que vimos, aquela da iluminura.

– Estas variando. És muito impressionável. Nada de mal irá me acontecer.

Mesmo assim, confesso que senti um calafrio e involuntariamente apertei o gibão sobre os ombros. Respirei fundo. O ar viciado da tasca recendia a vinagre, alcatrão e sebo.

– Olha que já fechamos, não quero acender mais tochas e aquela já se consome. Vai para a tua casa, se é que tens uma. – Disse o taberneiro.

O dia seguinte amanheceu glorioso. Dormíamos na velha carroça que nos servia de casa e transporte. Eu a estacionara fora da vila, num campo próximo, e já estava me exercitando numa corda amarrada entre duas árvores quando Bertrand saiu ainda sonolento para a manhã ensolarada e fria.

Apressa-te, Bertrand, falei-lhe. A preguiça em nada te ajudará nesta profissão. Aproveita e estende minhas melhores roupas ao sol. Duvido que a arca onde ficaram guardadas nas últimas semanas tenha melhorado o seu aspecto. Precisarei de todas elas hoje à tarde. Sim, sim, o gibão amarelo e as meias, verdes e vermelhas. Meu gorro azul… sabes onde o guardei? Pois ele também merece tratamento semelhante.

– Teu entusiasmo espanta-me! Disse-me Bertrand.

– Deixa-te disso, rapaz, respondi. – Cuida das mulas e depois trata de fazer fogo para o almoço. Vai à vila e compra pão e toucinho. Trarás também um bom chouriço, que hoje comeremos à farta. Vinho não nos falta, suponho. Procura e acharás alguma fruta, pêras e amoras talvez. Avia-te, que a vida não é só tocar alaúde. Um dia, quando deixares de ser aprendiz, poderás dar-te ao luxo de distribuir ordens.

Desci da corda e estiquei braços e pernas. Meus músculos ainda eram bastante flexíveis e brilhavam com o suor dos exercícios. Não pretendia exagerar, não me fosse ocorrer um mau jeito qualquer. Bertrand já voltara da vila trazendo as encomendas. Da sacola tirou também um empadão.

– Sobrou dinheiro, mestre, e atrevi-me a trazer mais essa iguaria, disse ele alegremente. Que achas?

– Fizeste bem, embora tema que só tu aproveitarás de tanta comida. Não devo me empanturrar…

– Ora, mestre, ainda nos resta muito tempo. Até lá terás novo apetite, aposto.

Bertrand tirou uma panela rasa da carroça e a colocou sobre o fogo. Fritou o toucinho com alguns ovos e depois o chouriço. Servimo-nos deles sobre largas fatias de pão. O empadão foi dividido ao meio e ainda estava quente do forno onde fora assado. Completamos tudo com um bom vinho gascão, pois ainda me restara algum para ocasiões especiais.

Enquanto comíamos assim lhe falei:

– Hoje é um dia de sorte para ti, Bertrand. Não tenho família, bem sabes, e quando soarem as vésperas tudo o que ora tenho será teu.

– Que dizes mestre? – Ele perguntou. Parecia sinceramente surpreso e aquilo me agradou.

– Pois então, ainda não adivinhas? Supunha-te mais esperto. Está claro que, haja o que houver, herdarás a carroça, mulas, roupas, tralhas, tudo o que aqui vês. Se  tiver sucesso serei rico e nunca mais porei os pés na estrada. Se não, de nada mais precisarei além de uma cova rasa e as orações que poderás dizer pela minha alma, se é que isso adiantará de alguma coisa.

– Ora, sempre foste generoso, mas não imaginava… Espera, ainda é tempo de desistires dessa insanidade. Vamo-nos daqui, ninguém nos alcançará se sairmos agora.

– Sei que falas com o coração, Bertrand, e não com a cabeça. Agradeço tua devoção mas é tarde para tornar atrás. Além disso prometi a São Cupertino uma vela da minha altura caso tudo saia bem, e o santo não vai querer perder uma oferenda dessas.

– Não sabia que tu eras tão devoto e nunca ouvi falar desse santo – Retrucou Bertrand.

– Não sou nenhum carola, mas todos os da nossa profissão, quero dizer, todos os que se arriscam nas alturas têm em São Cupertino o seu santo protetor. Já que não sabes fica agora sabendo. Diziam de São Cupertino que era ele tão estúpido quanto alguém pode sê-lo. Chamava a si mesmo de Frei Asno. Entretanto, levitava enquanto rezava. Não há santo mais perfeito para os equilibristas, pois também nós gostaríamos de levitar, e é isso o que pensam de nós quando andamos sobre a corda. Ademais, como sabes, todos julgam os equilibristas uns estúpidos, não é?

 O castelo era uma construção antiga. Dizia-se que seus fundamentos remontavam a conquista romana. Era quadrado e possuía duas torres internas muito altas. Uma corda grossa e forte fora amarrada à torre norte e atravessava o pátio lajeado do castelo em direção à torre sul. Deu trabalho prende-la. Nenhuma das escadas disponíveis era tão alta, então o jeito foi atar um cordel à ponta livre da corda e prende-lo a uma flecha, que foi lançada de uma torre para a outra. Levaram toda a manhã para conseguir fixá-la a contento. O Barão em pessoa acompanhava os preparativos para a travessia. Quando tudo ficou pronto subiu a um dos torreões e olhou para baixo. A altura lhe deu vertigens.

– Santo Ildefonso! Exclamou o Barão. – Só um louco tentaria uma travessia dessas. Essa proeza atrairá todos os aldeões, burgueses e nobres da região.

Tinha razão o velho Barão. Desde a manhã anterior as estradas encontravam-se tomadas pelos viajantes que se dirigiam ao castelo. As poucas estalagens estavam lotadas e muitas tendas já se erguiam nos campos ao redor da vila.  Alguns emissários de nobres da região já haviam chegado e o barão destinara a cada um dos seus senhores um aposento no castelo. Outros já lá estavam hospedados e trouxeram comitivas numerosas que se arrumavam como podiam nas casas dos burgueses ou nas vilas mais próximas.

– Não me lembro – disse-me o Barão – de uma feira tão concorrida desde que fizemos a última liça há quinze anos. Hoje está cada vez mais difícil promover esses torneios e os jovens cavaleiros estão mais interessados em cortejar as damas que romper lanças com os seus iguais!  Que santo Ildefonso te proteja, pelotiqueiro imprudente, pelo menos até que ponhas os pés na corda.

Assim era o Barão: Falava livremente, diretamente, e sempre dizia e que pensava.

 – Agora vamos, Bertrand, preciso inspecionar a amarração na torre norte. Atravessamos o pátio. O piso de pedra lavrada era um luxo pouco comum na maioria dos castelos em que eu já estivera, onde o chão costuma ser de terra batida. Também as duas torres tinham uma disposição singular. Em vez de estarem integradas à muralha, elas erguiam-se bastante afastadas dos muros. Tinham a mesma altura, mesma largura e eram ambas quadradas, mas serviam a funções diferentes. A torre norte tinha oito pavimentos e duas escadas cujo acesso era feito por duas  grandes portas em paredes opostas. Não se sabe qual fora a sua utilidade no passado, mas nos tempos do velho Barão era usada como depósito de provisões. Já a torre sul tinha um único pavimento em seu topo. Enquanto os pisos dos pavimentos da torre norte eram de madeira, o piso do único pavimento da torre sul era, assim como as suas paredes, todo de pedra. Grandes arcos o sustentavam, e talvez fosse este o mais notável trabalho de arquitetura que alguém poderia contemplar. A ele se chegava por uma longa e estreita escada de madeira, um tanto frágil e insegura, que se agarrava à parede e a escalava em volutas como hera. Dava espaço para somente uma pessoa por vez. O Barão a conservava assim, pois era um último refúgio caso o castelo fosse tomado de assalto. Outra característica curiosa das torres é que ambas dispunham, no seu último pavimento, de uma espécie de sacada que sobressaída de cada uma delas e davam para o pátio, exatamente uma defronte à outra. Imagino que, em tempos mais duros, tal aparato serviria para deitar alcatrão em chamas ou azeite fervente sobre possíveis invasores, e ainda se via, no seu parapeito, pesadas argolas de ferro e buracos quadrados, onde um dia se assentaram os tabiques de madeira. Para mim, entretanto, tal disposição viera bem a calhar, pois de outra forma não teria eu meios de chegar à corda com segurança.

 – Não é que eu não confie no Barão, bem sabes, mas isso de amarrar a corda onde terás que andar é cousa que não se delega a ninguém. Lembra-te disso, Bertrand, quando tu mesmo fores fazê-lo. Não te falei? Não disse que esses arqueiros mal sabem atar a corda das suas próprias armas? Vês? Os nós estavam frouxos e não havia calços! Deixei um garoto, cuja confiança comprei com promessas de moedas de prata, a vigiar a amarração da torre sul. Nunca se sabe, Bertrand, o que poderá alguém tramar quando há tanto ouro em jogo. Desconfio, sobretudo, do jovem Lorde. Ele bem pode tentar algo. Fosse ele a promover a travessia, jamais aceitaria fazê-la. Mas ainda temos algum tempo e o Barão ofereceu-nos gentilmente este aposento onde poderei descansar enquanto vigias a amarração desta torre. Não permitas que ninguém dela se aproxime e fica atento também à torre sul, pois a nossa jovem sentinela fará sinais a ti se algo de suspeito lá ocorrer.

– E fico aqui sozinho?- Perguntou Bertrand já desanimado com a tarefa enfadonha que tinha à frente.

 No castelo o tumulto era tal qual o da vila. O ano fora próspero. Rebanhos, vinhas, campos e pomares produziram mais que o suficiente. Dez anos de paz trouxeram bons frutos. As pequenas escaramuças de fronteira, que serviam mais para exercitar os jovens de ambos os lados que para disputar possessões ou prestígio, em nada afetaram os trabalhos do campo. Isso era um alívio principalmente para os servos, pois embora não tivessem menos trabalho, eram menos espoliados. Nas cozinhas preparava-se o banquete daquela noite e os aposentos eram arranjados para receber os visitantes. Os salões foram varridos, lavados e enfeitados com ramos de carvalho e faia, as árvores emblemáticas da casa. Na grande lareira do salão principal, uma novidade trazida pelo primogênito do barão quando voltara de Bordéus, um tronco inteiro de carvalho esperava ser aceso. O próprio rapaz conduzira a delicada operação de construí-la e agora estava ansioso para mostrá-la aos lordes vizinhos. O herdeiro do brasão dos Alvear ainda não tinha as esporas de ouro e pretendia, com o dinheiro arrecadado na feira, ver-se sagrado cavaleiro no mosteiro onde era abade o seu primo em segundo grau, Dom Salústio de Cantárida. O baronete acabara de entrar no castelo após ter cavalgado toda a manhã, no que fora acompanhado por outros jovens aristocratas da vizinhança. Parou no pátio a ver a montagem dos palanques e, sobretudo, a amarração da corda de uma torre à outra. Não viram que estava eu por perto, pois havia descido até as cozinhas.

– Esse grandessíssimo pateta fará mais bem ao castelo que a si mesmo, comentou o lorde com um dos cavaleiros.

– Tens razão, respondeu o outro. Teu nobre pai sabe como ninguém organizar festas e feiras. Gostaria de saber como fez para convencer Pepe, o Truão, a tentar atravessar o pátio da maneira mais difícil. Pepe não é um saltimbanco qualquer. É bem conhecido até em Espanha. Dizem dele que lê e escreve, o tratante, e que conhece a alquimia e os pergaminhos de São Cipriano.

– Ora, de que lhe valerá essa suposta sabedoria quando estiver a cinqüenta côvados do chão?  Preferia eu enfrentar uma legião de mouros, apenas armado com um estoque de madeira, a tentar uma loucura dessas.

– Já te disse que esse Pepe é cheio de expedientes. Ninguém entende porque, tendo nascido nesta vila, jamais tentou a travessia antes e nem porque resolveu faze-lo agora…

– Pois eu estava na taberna quando, dois meses atrás, meu pai lançou o seu repto anual. Pepe estava presente e muitos se surpreenderam em vê-lo.Foi ele mesmo, aliás, quem propôs a mudança na travessia e meu pai, imediatamente, percebeu o quanto isso iria aumentar o interesse de todos. Sinto apenas pelo dinheiro que será pago ao malandro se este não despencar lá de cima.

– Nesse caso, teu pai pretende pagá-lo? Olha que é, segundo ouvi, uma pequena fortuna.

– É claro que irá pagá-lo, malgrado meu! Fosse comigo, o velho Pepe poderia se dar por satisfeito se saísse daqui com duas moedas e as costelas inteiras. Meu pai, entretanto, leva isso tudo muito a sério. Admira sinceramente a coragem daqueles que se propõem a fazer a travessia e jamais deixou de pagá-los. Lembra-te quando, há três anos, aquele bufão normando venceu a distância entre as ameias? Meu pai deixou de comprar-me um novo garanhão, mas o patife recebeu o que lhe era devido.

– Pois creio que teu pai age bem. – Disse um terceiro companheiro. – Não fosse assim, quem iria arriscar-se a uma nova tentativa no futuro? Teu pai é sábio, ouve-me, e farias melhor em seguir-lhe os passos.

Tudo isso eu ouvira abrigado por trás de algumas pipas empilhadas ali. Sim, pensei comigo, eras bem capaz de quebrar-me as costelas, caso a queda não o fizesse. Ainda bem que teu pai é diferente de ti, víbora! A quem será que puxaste? Tua mãe, a bondosa castelã, sempre tem uma palavra amiga e alguns trocados para todos os que procuram sua proteção. Teu pai, embora seja mais judeu que cristão nos negócios, jamais deixou de honrar sua palavra. Mas tu, vilão, nada aprendeste com eles. É de temer o dia em que vieres a herdar o castelo, mas então, já não me pilharás aqui.

 Do alto do torreão eu olhava, lá embaixo, a estrada que conduzia até a vila. Estava de fato apinhada, e eu jamais me apresentara para tanta gente. Chamei Bertrand e lhe perguntei se estava preparado para a sua própria representação.

– Pois é claro que estou, disse-me ele. – Preocupa-te contigo, pois o teu trabalho é muito mais difícil que o meu. Que terei eu a fazer? Correr embaixo de ti com minha roupa de bufão e o meu cesto de palha, fazer caras de espanto, fingir que apararei tua queda caso caias?

– Sim, Bertand, é isso mesmo o que farás, mas desta vez, caso eu venha a cair, deves afastar-te, compreendes? Teu cesto, tu o sabes, é apenas uma encenação cômica para agradar as crianças. Não a leves a sério, rogo-te, pois não me salvarias e morrerias tu também, caso algo desse errado.

– Sei disso. – Retrucou Bertrand. – Entretanto, já soube de mais de um caso em que o equilibrista foi salvo ao cair justamente no cesto do companheiro. Lembra-te daquele espanhol que conhecemos, o coxo? Ademais, não creio que eu consiga arrancar muitas risadas da platéia com a minha pantomima. Os olhos de todos estarão voltados para ti, e eu mesmo não conseguirei sorrir com a necessária convicção.

– Sim, lembro-me do coxo. Mas, se não me engano, este caiu de altura consideravelmente menor, e mesmo assim feriu seriamente o seu aprendiz. Não, Bertrand! Não deves sequer tentá-lo!

– Acaso estarás lá embaixo para me impedir?

– Deixa-te de teimosia e obedece-me! Não quero andar sobre a corda com mais essa preocupação.

– Farei o que me pedes. – Disse-me ele afinal.

Fiquei mais aliviado. Gostava de Bertrand como a um filho, pois jamais tive um. Bertrand era, então, um jovem mancebo rijo e flexível como uma vara de aveleira. Muitos anos atrás eu o encontrara sentado à frente de um casebre, quando me aventurei pelas terras de França devastadas pela guerra com os ingleses. A casa estava em brasas e os ocupantes, mortos. O menino não chorava, não se mexia, apenas olhava fixamente à frente. Levei-o comigo, pois não podia deixa-lo ali. Teria, talvez, uns cinco anos. Não foi fácil faze-lo comer e demorou mais de uma semana até que dissesse o seu nome. Foi só o que disse, na verdade, sobre si ou sobre os seus. Para mim era suficiente. Afinal, tinha ele o que jamais me fora dado, um nome para lembrar!  Porém, em breve nos separaríamos e isto me apertava o coração.

 O momento de atravessar se aproximava e eu me encaminhei à torre sul a fim de verificar como andavam as coisas. O garoto que lá deixara não era, afinal, muito digno de confiança. Além disso, subir e descer tantas escadas serviria como aquecimento. Enquanto isso Bertrand ficara na torre norte com minhas roupas e adereços, pois seria dela que eu iria iniciar a travessia. Ao chegar, entretanto, quem me esperava não era meu vigia improvisado, e sim o jovem barão em pessoa. Pareceu surpreso, e a falsa cortesia com que me saudou deixou-me imediatamente apreensivo. O moço estava acompanhado por dois rudes companheiros, e os três me olhavam tal qual o perdigueiro olha o faisão.

– Pepe – disse-me ele. Não te arrisques a realizar proeza tão perigosa. Desiste agora e poderás ir-te daqui com algum ganho. Enquanto falava tirou algumas moedas da bolsa e as fez tilintar com desdém. – Desiste agora. Ajudar-te-ei na fuga. Sairás disfarçado como um dos meus lacaios.

– Jamais serei um dos vossos lacaios, meu Senhor, nem trairei a confiança do vosso nobre pai. – Respondi-lhe.

– Pois então, não sairás daqui por teus próprios pés, estulto! Ficarás amarrado até que a noite permita que desçamos contigo. Enquanto isso eu vou avisar a todos que te acovardaste e fugiste. É certo que ninguém virá procurar por ti nesta torre, pois eu mesmo me encarregarei disso.

Num átimo seus cúmplices estavam sobre mim, e em vão tentei desvencilhar-me. De nada adiantou gritar, pois o tumulto em baixo era grande. Ataram-me a uma cadeira, bem defronte à sacada por onde eu deveria entrar triunfante caso a vilania do jovem barão não mo tivesse impedido.

O tempo passava e minha apreensão crescia. Estava impotente e via meus planos irem-se juntamente com minha honra de saltimbanco. Avaliei que o baronete não se atreveria a me matar. Porém, não tinha dúvidas de que os seus asseclas me conduziriam a algum lugar ermo fora dos muros do castelo assim que a noite permitisse, e então eu seria escorraçado dali. A quem iria eu reclamar? Seria melhor morrer! Esforcei-me para me livrar das amarras e da mordaça, mas parece que os arqueiros que ajudavam o jovem barão eram melhores em amarrar pessoas do que cordas de travessia. Só me restava ficar ali fitando fixamente a outra torre, na esperança de que Bertrand percebesse alguma coisa. O infame baronete nada faria imediatamente. Esperaria pela comoção e desapontamento de todos para finalmente encenar que descobrira a minha fuga. Até mesmo Bertrand ficaria convencido disso. A odiosa companhia do baronete durou até pouco antes do toque do sino. Então, deixaram-me só.

 O sino, que marcaria o início do espetáculo, finalmente soou. Pude ouvir o burburinho arrefecer, e logo um silêncio incômodo tomou o seu lugar. Eu podia imaginar as centenas de olhos fixos na corda, assim como estavam os meus próprios olhos. Não pude acreditar, pois, quando vi claramente que um equilibrista colocara o pé na sacada da torre oposta. Ele trajava as minhas roupas, o meu barrete azul, e os meus guizos tilintavam nos seus tornozelos. Era Bertrand.

 Naquele momento não sei o que senti. Orgulho e terror, ternura e pânico se misturavam. Eu soluçava de ansiedade. Bertrand colocou o pé direito sobre a corda e esta oscilou. Não sei por que pensei, então, que meu vaticínio sobre Bertrand herdar tudo não era tão certo, afinal. Jamais teria me ocorrido que seria ele, e não eu, a se arriscar na corda. A cada passo de Bertrand meu coração parecia explodir. Eu transpirava mais do que se estivesse eu mesmo, fazendo a travessia. Uni-me, então, a ele, mentalmente. Dei cada passo que ele deu e vacilei com ele sobre o abismo. Ao meio do caminho entre as torres achei que não conseguiríamos, e tive certeza de que se Bertrand caísse, eu morreria antes do seu corpo tocar o chão. Percebi sua insegurança e o esforço que fazia. Sentia sua respiração, seu olhar fixo, sua concentração extrema. Agora faltavam ainda uns dez passos, e devo admitir que algo além do suor molhara os meus calções. A parte mais difícil estava por vir. A corda, naturalmente, se eleva em direção ao lugar onde é amarrada, e nessa parte deve-se escalar além de andar.  No caso, ela passava sobre o parapeito da sacada e ia fixar-se numa argola na parede externa da torre. Bertrand balançou perigosamente para a direita, corrigiu com dificuldade a trajetória do corpo e, num arranque, mergulhou por cima da sacada, vindo aos tropeções cair aos meus pés.

 Eu estava tão aturdido que parei de raciocinar. Não entendia porque Bertrand, ainda tremendo, se agitava e me sacudia. Demorei a voltar a mim e a notar que meu fiel discípulo soltara minhas mãos e pés.

– Rápido! – Ele clamava enquanto se despia. – Põe logo as minhas roupas, digo, as tuas próprias. Mas que fizeste? Urinaste nos calções? Estás mesmo senil, meu velho.

Passada a tensão da travessia, Bertrand exultava! Jamais imaginei que o jovem mancebo tivesse tanta força interior, tanta coragem, tanto sangue frio. Afinal, ele acabara de realizar uma proeza que ninguém havia feito, e para qual nenhum pelotiqueiro, muito menos ele, estaria preparado.

– Depressa – Ele insistia, olhando para baixo – O velho barão se aproxima com sua comitiva e nos espera na base da torre.

Nisso percebemos passos que se apressavam escada acima. Corremos para a estreita porta e Bertrand pensou em fechá-la, mas eu o impedi. Não seria difícil empurrar quem quer que fosse escadaria abaixo, pois a passagem apertada não permitiria qualquer manobra e a vantagem era nossa. Eram os dois homens que me haviam amarrado, e eu os detive antes que galgassem os últimos degraus.

Alto! – Bradei. Não se aproximem ou eu os derrubarei.

Eu havia tomado, em uma das mãos, a pesada cadeira onde fora preso, e na outra segurava a corda que me atara a ela. Estalei a corda, como a um chicote, em frente aos seus rostos, e eles perceberam que não seria fácil me dominar.

– Tudo está acabado! – Exclamei. – Voltai e dizei ao vosso amo que eu nada direi sobre o que aqui ocorreu. Nada contarei ao Barão. Tudo o que quero é partir com o meu prêmio.

Embora rudes, os homens não eram tolos. Perceberam rapidamente que o jogo mudara, e voltaram por onde haviam vindo. Descemos calmamente, dando tempo a que os vilões prestassem contas ao seu dono. Bertrand ria dos seus calções molhados. Em baixo nos esperava a multidão, e fui aclamado como a um herói. Isso me doeu mais que tudo, pois não podia contar que o verdadeiro merecedor de tais honrarias estava ao meu lado, cheirando a urina e ignorado por todos.

 O Barão queria que ficássemos para a grande ceia, mas eu aleguei que estava exaurido, que fora uma dura travessia, e que eu preferia me retirar, se assim o meu Senhor consentisse. De fato eu não mentia, pois estava realmente arrasado.

O Jovem lorde, ao lado do pai, mal continha a sua ira. Teve, porém, que me saudar como os outros. Naquela mesma noite tratamos de nos safar, e o fizemos sorrateiramente, abandonando a carroça e levando apenas as mulas, alguma roupa e comida. Eu temia que o infame lordezinho nos pudesse emboscar e tirar-nos a bolsa e a vida. Felizmente eu conhecia como ninguém aqueles bosques, e em breve nos vimos livres da sombra do castelo. Dei metade do dinheiro a Bertrand e nos separamos sob a promessa de nos encontrarmos num lugar distante dali, conhecido de ambos.

Três dias depois encontrei Bertrand sob a grande faia onde muitas vezes nos exercitáramos. Era um lugar bem escondido e pouco conhecido, de modo que estávamos seguros. Só então pude abraçar o meu pequeno ajudante como queria, e agradecer-lhe a devoção e a coragem. Perguntei, então, como ele havia descoberto a trama do jovem lorde, e porque resolvera tomar o meu lugar.

– Bem – Disse-me ele. – O rapaz que pagaste para guardar a torre sul apareceu na torre norte, onde estava eu de guarda. Disse-me que o jovem lorde e mais dois homens o haviam expulsado de lá, e ele temia que fossem balançar a corda quando tu estivesses sobre ela. Ora, como ele chegou até mim pouco tempo após tu mesmo teres partido em direção à torre sul, supus que só não se encontraram a meio caminho devido à multidão que tomava conta do pátio. Deduzi também que ao chegares à torre sul aquele vilão não permitiria que retornasses, pois seu ardil fora descoberto. Fiquei sem saber o que fazer, e me demorei pensando se eu deveria procurar o Barão. Mas o que dizer a ele? Que seu filho tramava contra ti? Não creio que eu conseguisse, mesmo, aproximar-me o suficiente para falar-lhe. Pensei, então, se deveria eu mesmo ir à torre sul para libertar-te. Mas que poderia eu fazer contra três homens armados? Nesse tempo vi o jovem lorde e os seus servos saírem da torre. Faltava pouco para o grande momento. O Lorde foi em direção ao palanque principal, mas os seus homens vieram em direção à torre onde eu estava. Tive certeza de que viriam até mim para agarrar-me, pois sabiam que eu lá estaria. Imaginei também que devias estar preso ou mesmo, morto. De qualquer modo, ainda estarias na torre. Eu estava encurralado, e corda era o único caminho para a torre e, talvez, para a liberdade. Resolvi, então, tomar o teu lugar. Rezei a São Cupertino para ainda estares vivo, vesti as tuas roupas, confirmei que o baronete estava junto ao pai no palanque principal e esperei o sino. Este soou ao mesmo tempo em que os dois patifes começaram a esmurrar a pesada porta de carvalho que impedia o acesso àquele piso. Só sinto não ter podido ver a expressão do lordezinho quando pus o pé na corda…

 E assim, graças à sagacidade e à coragem do meu jovem aprendiz, aqui estou eu contando a história. Ao contrário do que eu planejara não nos separamos logo. O dinheiro que ganhamos foi suficiente para nos estabelecermos com uma estalagem. Alguns anos depois Bertrand casou-se e teve filhos. Tem, finalmente, o lar que nunca teve. Recentemente decidi passar meus últimos anos neste pequeno convento, onde a disciplina é pouca e os frades preferem o ouro que ainda tenho à fé que já não possuo. Vivo sossegado entre livros e vinhos. Não se diga, entretanto, que Pepe, o Truão, não teve o seu dia!

(Obrigado, Conan Doyle).

 

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