O Diabo e o Pescador

UM

Sentado num rochedo à beira mar, cansado de labutas e de imortalidade estava Lúcifer, envolto no seu manto cor de terra. Meditava pensamentos sombrios e recordava um passado perdido de liberdade e luz. Num longo suspiro levantou-se. Ao faze-lo notou, adormecido na areia da praia logo abaixo, um velho pescador com suas redes. Desceu até lá silenciosamente e aproximou-se.

– Assim vivem e assim se deterioram meus pequenos bonecos de barro. Este, por certo, não durará muito mais tempo e em breve seu corpo tornará ao pó de que é feito. Invejo o seu esquecimento.

Nesse momento o velho estremeceu e acordou. Sentou-se. Era noite alta. A luz fria da lua cheia roubava o relevo das coisas como num desenho a nanquim. Não se espantou com o vulto ao seu lado, era velho demais para isso.

– Acho que cochilei – disse ele com esforço. Não tive forças para puxar a rede. Deitei aqui para descansar, ou quem sabe para morrer… Já vivi muito, porém Deus reluta em me levar para o seu lado.

– Sem dúvida reluta – disse Lúcifer. Mas porque estás só? Não tens tu família, alguém que zele por ti?

– Já tive tudo isso… Nada me restou… Tiro o meu sustento do mar… Hoje, não tive forças. Os peixes escasseiam…

– Assim é, meu velho.

– E o senhor… O que faz por aqui?

– Também para mim a pesca anda escassa, menos por falta de peixes que por ânimo de continuar a pescá-los.

– O Senhor não parece pescador…

– Eu posso ser muitas coisas, também um pescador. Porém, sou mais conhecido por algo que não sou. Se te disser meu nome, logo reconhecerás quem partilha tuas últimas horas, porém esse mesmo nome te afugentará de mim.

– Não tenho nada de valor e sinto que estou mesmo morrendo… Nem motivo para temer ninguém. Não conheço o Senhor, mas agradeço a sua companhia…

– Sendo assim, digo-te que meu nome é Lúcifer.

– Não brinque com quem está à morte.

– Diz-se que Lúcifer não brinca. Naturalmente é outra mentira sobre mim. Afirmo-te, porém, que o que digo é verdade. Por favor, não te levantes. Não vim aqui para te buscar, se é o que pensas. O destino fez com que nos encontrássemos, o exilado e o moribundo. Tu, que em breve partirás. Eu, que aqui ficarei para sempre.

– Se é verdade o que o Senhor diz, ainda tenho minha alma a perder… Mas estou muito fraco, e se vou para o céu ou para o inferno não vai ser agora que vou mudar isso.

– Não tema, nem te preocupes.

– Olha, Seu Diabo, seja o que for que o senhor vá fazer, faça logo. Mal consigo falar…

– Sim, sim. A morte se aproxima de ti. Pois te proponho um acordo.

-Um acordo com o Diabo? À beira da minha morte? Deus me livre…

– Calma, nada exigirei de mais. Não posso impedir que morras, pois todos os que aqui nasceram um dia terão que perecer. Mas posso adiar o momento da tua morte e dar-te, por algumas horas, a sensação de plena saúde e juventude. O que peço em troca é apenas que conversemos. Prometo que ganharás conforto e prazer antes de ires e eu ganharei, por algum tempo, a tua atenção e companhia. Permanecerás aqui enquanto nossa conversa durar.

– Bom, se é assim… Nada de vender a minha alma, não é?

– Nada quero com tua alma.

– É uma promessa?

– Uma promessa solene! Então, já te sentes melhor?

– Puxa! Como se tivesse vinte  anos!  Caramba! O senhor é mesmo o Diabo!

– Lúcifer, por favor. Trata-me por Lúcifer. Também não precisas me chamar por senhor. Nunca pretendi ser senhor de nada e nem de ninguém.

– Tudo bem. Mas agora que você me deu saúde, ainda que por pouco tempo, estou sentindo uma fome danada.

– Muito bem, pescaremos e faremos uma bela fogueira, que nisso, segundo dizem de mim, sou muito bom.

– Como?!  Não dá pra criar um banquete?

– Não, não é possível. Não é assim que acontece. Não crio as coisas do nada. Posso transformar e modelar a matéria, mas isso demora um pouco. O melhor é que pesquemos. Aí tens tuas redes. Tens também o vigor físico que te faltava. Tens o conhecimento e a prática. Que mais queres? Vai e pesca. Os peixes serão dóceis contigo, posso garantir-te. Procurarei, enquanto isso, por galhos e gravetos. Prepararei uns espetos e assaremos o que pegares.

DOIS

– Ah! Foi boa a idéia de pescar. Numa única tarrafada peguei tudo isso. Olha só o tamanho deste! Pois então, Seu Lúcifer, tomara que você seja bom cozinheiro.

– Que tal te parece a fogueira que fiz?

– Puxa, isso é um fogaréu dos infernos!

– Bem sei! Dá-me os peixes que os colocarei nos espetos. Assim…

– Muito bom né? Gozado, não sabia que o diabo comia. Desculpe. Não sabia que… Bom… Não sabia…

– Já entendi. Não sabias que preciso me alimentar. Não preciso. Mas posso, se quiser. No princípio achava estranho e obviamente desnecessário. Com o tempo, entretanto, aprendi a apreciar o sabor, o aroma, a textura… Pequenos prazeres que atenuam a agonia da minha existência. Mas só consigo faze-lo quando assumo a forma humana, como agora.

– E como é a sua aparência quando, bom, quando você não está na forma humana?

– Ah! Garanto-te que não é nada parecido com chifres e pés de bode. Se agora me despisse deste corpo, nada verias. Teus olhos são para ver unicamente a matéria. Entretanto, sou muito semelhante a ti.

– Quer dizer que você tem pernas, braços, olhos, boca, mas é invisível…

– Não, para que teria eu esses órgãos todos? Acho que me expressei mal. É difícil dizer-te. Somos semelhantes, como não poderia deixar de ser, porém, não do modo como pensas. É difícil explicar-te, inda mais que és um pescador sem erudição.

– Não me julgue assim tão estúpido. Antes de ser pescador estudei por doze anos num seminário. É, não fique tão espantado, eu ia ser padre. Sabe como é, quando eu era menino, gente pobre como eu só tinha chance de estudar se fosse parar num seminário. Fiquei lá aquele tempo todo, mas, quando chegou a hora de fazer os votos, fui-me embora. Não nasci para aquilo. Mesmo assim aprendi muito com os padres.

– Quem diria! Estranhos são os caminhos do acaso. Encontro-me com um antigo seguidor do meu algoz. Pois bem, já que tens alguma ilustração, talvez possas acompanhar-me no que te vou explicar. O que há de semelhante em nossa aparência é a disposição perceptiva e a elaboração das percepções. Percebes as coisas de modo semelhante àquele que eu mesmo percebo. Tens imaginação e raciocínio e criatividade. Nomeias as coisas e usas da palavra. Aprendes e ensinas…

– Mas isso não é aparência. Isso é essência.

– Parabéns! Falas como um filósofo. Afirmo-te, porém, que isso é aparência e é aí que somos semelhantes. Em essência, entretanto, não somos apenas semelhantes, somos absolutamente idênticos.

– Como assim? Quer dizer…

– Quero dizer o que te disse. Que somos idênticosem essência. Aquiloa que chamas alma, esta é a tua essência. Algo infinitamente mais difícil de te fazer imaginar, não te iludam as explicações que te deram os padres. Mesmo entre os meus iguais, apenas uns poucos podiam lidar com a essência. Eu era um deles. Mas isso é passado, um passado incomodamente saudoso.

– Os seus iguais? Outros demônios?

– Ai, ai. Temia por isso. Tens uma visão naturalmente estreita e deturpada. Milhares de anos de mentiras. Não será nada fácil dissuadir-te da imagem que tens de mim. Entretanto, certamente te recordas de que nem sempre fui o que chamas de demônio.

– Claro! Você fala da época em que você era um anjo, antes da queda. Os seus iguais eram os anjos, então.

– Não exatamente. Os meus iguais eram como eu, assim como tu és igual a teu pai ou teus irmãos. Porém, se eu te disser que tu e teus irmãos sois iguais por serem todos patos ou cães, não estarei sendo preciso. Nem eu nem os de minha espécie somos anjos ou demônios, não da maneira como os mortais imaginam. Somos o que somos. Poderia dizer que somos espíritos, mas a idéia que fazes de espírito é, também ela, imprecisa. Porém, para não nos alongarmos nesse assunto direi que os da minha espécie são seres muitíssimo antigos, surgidos no começo dos tempos e dotados de tal liberdade e poder que não poderias imaginar.

– Certo. Mas vamos voltar um pouco, quando você falou que, em essência, somos idênticos. Isso quer dizer que a minha alma é igual à sua.  Então, se em essência nós somos iguais, porque você fica falando a toda hora que eu sou mortal?

– Isso porque és imortal na essência, mas não na aparência. Os da minha espécie são imortais na essência, como tu. Entretanto, também na aparência somos imortais. Explico melhor: Quando morreres, e perdoa-me por recordá-lo, teu corpo se diluirá e com ele todos os teus predicados, que há pouco chamávamos tua aparência. Eu não tenho um corpo assim como o teu, que dá sustentação a esses predicados. A união entre minha alma e o meu, digamos, corpo, é indissociável. Sou imortal também na aparência.

– E por que é que nós, mortais, somos assim?

– Isso é uma longa história.

-Quanto mais longa, melhor.

– A razão é simples. Fostes criados. E o criador não tinha o poder de vos criar como seres idênticos a si mesmo. Como te disse há pouco, qualquer dos seres da minha espécie tem o poder de criar vida que a eles se assemelhem. Poucos, entretanto, tem o poder e o conhecimento para nelas insuflar a Sagrada Chama. Nenhum de nós, entretanto, pode criar um seu igual da maneira como vós fostes criados.

– Nisso somos superiores a vocês! Eu, por exemplo, criei dois filhos da minha mesma espécie. Aliás, qualquer inseto consegue fazer isso.

– Não me compreendeste. É claro que criamos seres iguais a nós mesmos. Como imaginas que nos reproduzimos?

– Não faço idéia. Nem sabia que anjos se reproduziam. Para mim os anjos foram criados por Deus, então não se reproduzem por si mesmos. Quando eu era menino, lá no seminário, a gente dizia “discutir o sexo dos anjos” quando uma discussão não levava a nada…

– Já te disse que não sou um anjo. Não, não foi Deus quem nos criou. Pelo menos, não esse personagem a quem chamas teu Deus. Este é, como eu, apenas um da minha espécie, e nem dos mais criativos ou engenhosos.  E finalmente: Sim, não temos sexo, porém nos reproduzimos. São necessários dois de nós para gerarmos um terceiro da nossa espécie. Quaisquer dois, não há seres masculinos ou femininos entre nós.

– Vocês são hermafroditas?

– E tu és mais esclarecido do que pensei. Não, não há hermafroditismo. Não há reprodução sexuada ou assexuada. Não há matéria densa na nossa composição, portanto não necessitamos disso. O que existe é uma fusão, como direi, uma fusão de atributos energéticos.

– Fiquei na mesma.

– Pois então, que seja! Mais não te posso dizer. És como o cego que pretende entender a luz.

– Também não precisa esculhambar. Não fui eu que quis conversar. Você é quem teve a idéia. Não, calma! Não estou reclamando. Por mim a gente pode papear até que o mundo acabe… Por falar nisso, por que é que você quis conversar comigo? Logo comigo?

– Tenho os meus motivos. A ti basta que saibas que, por vezes, até Lúcifer se sente melancólico e solitário. Além disso, tenho um carinho especial pelos humanos. Tu, porém, estavas no lugar certo e na hora certa. Creia, não foi apenas o acaso que hoje nos reuniu.

– Depois de hoje, creio em qualquer coisa. Mas você não tem ninguém para conversar? Não tem um monte de diabos lá no inferno?

– Antes é forçoso que entendas algo sobre o inferno a que te referes. Não há, na verdade, inferno algum. Essa idéia ingênua e absurda de que possuo um reino nas profundezas da terra, onde torturo as almas pecadoras é, como hoje se diz, propaganda enganosa. Faz parte do sem número de calúnias de que tenho sido vítima.

– Ora, ora. Você vai me desculpar, mas diabo sem inferno não é diabo. Para onde vão, então, as almas dos criminosos?

– Se forem realmente almas de criminosos, estas não vão a lugar algum. Porém, é bom que saibas que os crimes que o teu Deus diz que são crimes, nem sempre o são de fato.

– Espera um pouco. Se não existe inferno e se as almas dos criminosos não vão para lugar nenhum, cadê a justiça? Eu acho que não basta apenas premiar os justos com o Paraíso, os maus também deviam ser punidos. Esse é o seu trabalho, não é?

– Não! Não é, jamais foi e nunca será. Não te parece contraditório que o anjo revoltoso que dizem que fui, se preste a ser o algoz de condenados como ele mesmo?  Eu seria muito estúpido se me submetesse a esse tipo de farsa.

-Como é?

– Veja. Segundo dizem de mim, sou a essência do mal. Os maus, então, me são caros. Sou eu quem estimula a maldade, não é? Pois se os maus são como eu, se os maus se opõem, assim como eu, àquele que chamas teu Deus, então porque eu os maltrataria? A verdade é bem outra, meu caro. Jamais torturei alguém. A simples idéia me repugna. Não sou eu quem aprecia punições…

– Mas, se não existe inferno, então os maus também vão para o Paraíso, junto com os justos?

– E quem te disse, meu velho, que os justos vão ao paraíso. Quem te garante que existe o tal paraíso de que te falaram?

– Se não existe inferno e nem paraíso, o que é que existe, então?

– Em breve te direi. Mas não me atropeles. Ainda devo responder à pergunta que primeiro me fizeste, sobre os muitos diabos que julgas me façam companhia.

 – É mesmo…

– Pois não é bem assim. Em primeiro lugar, foram poucos os amigos que me seguiram no exílio. Como vieram de livre vontade, não eram obrigados a aqui ficar. A maioria já se foi. Faz pouco me despedi do último deles. Alguns seres de outra espécie ainda me acompanham, mas não é a mesma coisa… Estou só, aí tens, e só permanecerei. Os que comigo vieram poderiam fazer-me companhia pelo tempo que lhes aprouvesse, porém, uma vez deixando-me não mais estão autorizados a retornar.

 – Espere um pouco. Quer dizer que os seus companheiros não foram condenados com você, quando você se revoltou contra Deus? 

– Não, não. Não houve a revolta que te ensinaram. Não como pensas ou como te foi contado. Apenas eu cometi o crime, cuja pena foi o exílio. E não foi por revoltar-me que fui punido. Essa história de revolta só poderia ter partido da mente de quem a concebeu. Alguém para quem a insurreição é a mais grave das faltas…

– Então, como foi…

– É difícil contentar-te. Fazes sempre novas perguntas e nem ao menos esperas pelas respostas.

– Desculpe, você tem razão. É que a cada resposta sua eu fico com mais dúvidas ainda.

– Não falemos disso agora. Antes quero rememorar e compartilhar contigo outras histórias. Gostaria que compreendesses. Na verdade, preciso saber se compreendes, se há esperança de que alguém compreenda.

– Lúcifer querendo compreensão. É boa!  Sem ofensa, não vá ficar irritado. Sou agradecido pelo tempo extra que você me concede. Principalmente por que você prometeu que não vai me levar com você, lembra? Mas você não acha que é querer demais que um humano como eu compreenda o Senhor do Mal?

– Parece que não me ouviste, que nada compreendeste do que há pouco te disse.  Ou ainda, apenas finges que me escutas, só para não me contradizer. Tens medo, aí está!

– Não vou negar que tenho medo. Não dá para esquecer toda a maldade que você tem feito no mundo.

– Senhor do Mal, toda a maldade… E que maldades seriam essas?

– Bom, sei lá, ficar tentando as pessoas, fazendo com que elas pratiquem o mal. Desde Adão e Eva…

– Adão e Eva? Boa lembrança. Falemos, então, de Adão e Eva. Sabes quem eram eles?

– Claro, os pais dos homens. O primeiro casal que foi posto no Jardim do Éden por Deus e que você corrompeu.

– Acreditas mesmo nisso?

– Acho que isso é mais uma lenda, melhor dizendo, uma maneira figurada de explicar a criação. Não tem muita gente que acredita nessa história ao pé da letra hojeem dia. Eumesmo não acredito, quer dizer, não acreditava. Agora tenho que rever as minhas crenças.

– Pois bem. É uma boa oportunidade a que tens. Direi quem era o ilustre casal e o que lá aconteceu. Queres saber? Sei que queres. Então ouve:

TRÊS

Em tempos remotos a vida foi criada na Terra. Demorou muito para que surgisse, desde a primeira semente implantada nos mares e nos pântanos, algo que se assemelhasse a qualquer planta ou animal hoje conhecido. A lenta evolução dos seres contou com uma pequena, mas decisiva, ajuda da Raça Ancestral, a mesma que depositou o primeiro gérmen da vida no planeta, principalmente no que se refere aos humanos. Estes, os humanos, foram os escolhidos para desenvolverem características que os tornassem semelhantes aos seus criadores. E foi assim que se diferenciaram dos seus ascendentes mais próximos e se tornaram capazes de avaliar, discernir, elaborar idéias complexas, falar, aprender. Eram, entretanto, ainda muito toscos e rudes, embora intelectualmente capazes, quando lhes foi insuflada a Sagrada Chama, princípio da própria imortalidade, sem a qual não poderiam perpetuar seu aprendizado e conhecimento. Um grande número de indivíduos da espécie humana espalhou-se pelos continentes e agrupou-se em tribos e clãs, até que finalmente a Obra foi revelada para o Supremo Conselho da Raça Ancestral. Os membros do Conselho, embora elogiassem a sua beleza e complexidade, desaprovaram a iniciativa de dotar os humanos da centelha da imortalidade, o que consideraram um crime e um sacrilégio. O Autor, a despeito de ser respeitado como o mais criativo artista e o mais generoso e desprendido dos Ancestrais, foi afastado do controle da sua criação, que foi entregue a outro. Sua punição foi o exílio, um exílio particularmente cruel, pois foi confinado no próprio orbe onde criara sua obra prima. A obra, entretanto, permaneceu, pois a nenhum dos Ancestrais era permitido desfazer o que um deles fizesse, porém estava incompleta. Faltava, sobretudo, orientar aqueles pequenos seres para que desenvolvessem ao máximo as suas potencialidades sensoriais, intelectivas e espirituais.

Ora, esse novo Controlador nada sabia ou compreendia da sua nova empreitada. Voltou-se imediatamente contra as criaturas consideradas sacrílegas e as perseguiu por longo tempo. Porém, no começo, desconhecia a superfície do planeta e não sabia onde estavam escondidos todos os humanos. Concentrou-se, então, em um pequeno clã que vivia isolado em uma estreita faixa de terra entre dois rios caudalosos e aí resolveu agir, pois fora informado falsamente que aqueles seres eram os únicos em quem a Chama Eterna fora infundida. Era apenas um casal, a quem a tradição posterior nomeou de Adão e Eva, e os seus filhos. Viviam nus, como era natural, e procriavam livremente, como era de se esperar. Nada sabiam da sua origem, nada sabiam do seu destino. Comportavam-se de modo bastante singelo e pouco utilizavam o imenso potencial que lhes fora doado. Desconheciam até que eram portadores da Chama Sagrada e, por não saberem disso, também não suspeitavam que os seus descendentes a herdariam. Eram felizes, entretanto, esses homens primitivos, pois quase nada lhes faltava para suprir as poucas necessidades que tinham. A região era fértil e rica em águas e animais. O clima era ameno e não exigia outra proteção que o abrigo sob as copas das árvores. Viviam da coleta de frutos, dos peixes dos rios, de uma ou outra caça. Jardim do Éden foi chamado, muito tempo depois, esse lugar. O casal havia migrado há não muito tempo, desligando-se de um grande grupo que vivia mais ao sul e mais ao leste, embrenhado nas florestas tropicais. Por isso, Adão e Eva tinham a sua própria e rudimentar cultura e o seu próprio e rudimentar idioma. Era essa, portanto, a condição do nobre e rústico casal quando foi descoberto pelo seu novo Senhor. Este, sabendo que não poderia simplesmente destruí-los, concebeu um plano que lhe pareceu bastante astucioso. Apresentar-se-ia como o seu criador, o seu Deus, e os convenceria a mudar completamente o seu modo de vida, dificultando o mais possível a sua existência. Foi o que fez. Convenceu-os, aos poucos, de que tudo lhes era interdito. Encheu-os de culpa, de desconfiança, de terror. Instigou uns contra os outros. tornou-os mesquinhos, competitivos, destrutivos. Inventou algo a que chamou “pecado” e lhes proibiu até o prazer que tinham quando copulavam, suprema vilania!  Oprimiu, sobretudo, as mulheres, por quem nutria um ódio especial, talvez por se assemelharem mais aos Seres Ancestrais.

O verdadeiro criador, porém, embora destituído da maioria dos seus poderes, estava vigilante. Teve que agir dissimuladamente. Desde então procurou e procura mostrar aos humanos a estupidez e a insanidade de tais preceitos absurdos. Porém o ladino usurpador instruiu os pobres mortais a odiarem quem de fato os tinha criado. E assim é até hoje…

– Quer dizer… quer dizer que o verdadeiro criador é você? Entendi certo?

– Certíssimo. És bastante esperto. Sim, essa é a verdade.

– Ora, ora. Então tá!

– Não acreditas? Que interesse teria eu em dizer mentiras? Digo-te que não foram poucas as vezes que esse a quem chamas Deus tentou destruir completamente a humanidade. Por acaso te recordas da história do dilúvio?

– Claro! A Arca de Noé. O dilúvio universal…

– Bom, nem tão universal assim. O dilúvio não passou de uma grande enchente localizada no que é hoje o oriente médio e destinada a destruir o maior número de seres humanos portadores da Sagrada Chama. Afinal, o Usurpador não sabia que a Chama fora distribuída entre todos os humanos.

– Ué! Mas então por que instruir Noé a construir a arca?

– Simples artimanha. Como te disse, é vedado a qualquer um da minha espécie destruir o que outro construiu. O Usurpador temia o julgamento do Conselho da Raça Ancestral, sobretudo porque estava eu atento e pronto a avisá-los de qualquer tentativa nesse sentido. Quando descobri as suas intenções, despachei um portador com notícias ao Conselho. O Usurpador agiu rápido e, quando questionado, apresentou a família de Noé e a Arca, demonstrando assim que pretendia salvá-los de um cataclismo natural. Mais uma vez fiquei desmoralizado.

– E Sodoma e Gomorra?

– Ah! Sim. Daquela vez ele perdeu mesmo a paciência. Os habitantes dessas duas cidades eram particularmente inteligentes e cultos. Deixaram de seguir os seus preceitos e, instigados por mim, passaram a viver a vida como esta deve ser vivida. Num ato impensado, ele destruiu diretamente as duas cidades, sem mais nem menos. Foi uma grande vitória para mim…

– Como, vitória? Morreu gente à beça.

– De fato, mas quando o caso chegou ao conhecimento do Conselho, este puniu o Usurpador reduzindo drasticamente os seus poderes. Limitou a sua influência apenas aos povos que declaravam abertamente seguí-lo e respeitá-lo. Os demais, a maioria, passaram a respeitar outros costumes e a venerar outros, digamos, deuses. Foi uma época muito divertida. Era um deleite para mim, ver como egípcios, gregos, hindus, romanos, persas, chineses tinham, cada qual, a sua própria concepção de divindade, embora nem sempre tais representações fossem elegantes ou apropriadas.

– E você não tentou impingir àqueles povos a sua versão, quer dizer, a verdadeira versão da criação?

– Claro que não. Jamais pretendi ser cultuado. Jamais pretendi ser chamado de Deus. Prezo a liberdade e a criatividade. Divertia-me a variedade de credos, os quais, na sua maioria, eram inofensivos. Foi uma época de muito trabalho. Por minha influência surgiu a matemática entre os persas, a geometria entre os egípcios, a filosofia entre os gregos. Por minha influência aprenderam as artes e as ciências. Enquanto meu opositor capitaneava o seu povo eleito e o mantinha sob um rígido e incompreensível código de conduta, eu instruía os outros povos. Mas fui descuidado. Deixei-me influenciar pela tática do meu inimigo. Quando o povo eleito foi submetido pelos Romanos eu deveria tê-los ajudado. Mas, não! Fui mesquinho. Esqueci-me de que aquelas criaturas eram vítimas. Esqueci-me de que ainda eram meus filhos. Sobretudo, não pressenti o perigo.

– Que perigo?

– O Messias, o que mais poderia ser? Assim que o novo credo começou a se espalhar vi que o meu algoz tinha vencido. O cristianismo grassou entre os povos e imprimiu o maior retrocesso cultural e civilizatório que já pude observar entre os mortais. Desde então a coisa tem ido de mal a pior. Fui particularmente atingido. A grotesca e difamatória figura do diabo com chifres e pés de bode foi criada pelo cristianismo. Desde então, só tive aborrecimentos.

– Posso fazer uma pergunta um pouco fora desse assunto.

– Pois claro que podes.

– Os outros povos, que tinham outros deuses, de onde é que eles tiraram a religião deles? Foi você?

– Já te disse que não. Nada tive com isso. Não fomos os únicos, eu e o Usurpador, a agirmos sobre os mortais. Outros vieram, da Raça Ancestral, e não apenas eles. Na verdade, quando os poderes do Guardião Oficial do Planeta foram reduzidos, isto aqui virou terra de ninguém. O Conselho fez vistas grossas e muitos se divertiram, alguns com boas intenções, outros nem tanto, principalmente alguns seres de outros orbes, seres dotados de grande conhecimento e mobilidade que para aqui vieram com os mais variados interesses. Tive algum trabalho para combatê-los e, em uns poucos casos, enxotá-los daqui, já que aquele nosso amigo não estava preocupado com nada disso.

–  Você está falando de seres de outros planetas, de marcianos, essas coisas?

– Sim, é a eles que me refiro. Nem todos, entretanto, eram mal intencionados. Alguns deixaram ensinamentos valiosos. Não compreendiam, entretanto, a natureza dos mortais e os tomavam por seres inferiores, sem saber que, embora rudes e ignorantes, os humanos detém a essência da imortalidade.

– E o que você fazia com eles?

– Ora, na maioria das vezes, nada, apenas observava. Meu modo de agir sempre foi o de influenciar os humanos, fazendo com que em sua mente surgissem idéias, conceitos. Isso porque não aprovo a interferência direta, miraculosa, espalhafatosa, que nada ensina e a tudo mistifica. Porém, tive que enxotar um grupo de seres que se instalou aqui na América. Obtive permissão especial do Conselho para isso.

– Sério? E como você fez?

– Já sei, queres um relato romanceado, onde apareço entre fumos de enxofre e chispas de fogo, não é? Sinto desapontar-te. Apresentei-me e disse calmamente que deveriam abandonar o planeta. Eles foram bastante razoáveis.

– Quer dizer, bastou um pedido bem educado e tudo bem?

– Bem, quase isso. Conheci pessoalmente o criador daqueles seres. Um grande artista, mas que neles não insuflou a Sagrada Centelha, embora os tenha recompensado com uma longevidade realmente impressionante. Eu mesmo não faria melhor…

– Não diga! E quanto tempo eles vivem?

– Muito tempo. Se um deles nascesse aqui no nosso planeta, viveria o suficiente para ver as montanhas crescerem.

– E porque os humanos vivem tão pouco?

– Tendes a Chama Sagrada! Sois imortais! Que mais quereis?

– Ta bom, desculpe.  O que aqueles seres queriam aqui na Terra?

– Pilhagem, que mais seria? Pilhagem genética. Não se contentavam, porém, em obter alguns espécimes. Promoviam experiências com os pobres humanos e chegaram a criar alguns híbridos realmente apavorantes e perigosos. Pior ainda, distorciam e alteravam consciências. Desconfiavam que os humanos eram portadores da Chama e queriam capturá-la. Por isso tive de intervir. Tais experimentos punham em risco a própria sobrevivência da espécie humana. Queriam ser deuses, os malandros… Mas por ora chega de falar disso. Não estamos aqui para conversar sobre extraterrestres.

– Deuses? Quer dizer que existem mesmo muitos outros deuses?

– Ai, ai, ai… Porque fui tocar nesse assunto? Esquece! Não há nenhum deus. Não somos deuses, nem mesmo nós, os da Raça Ancestral. Somos, é claro, imensamente poderosos e imortais, mas não criamos o universo. Podemos modelar a matéria e a energia. Alguns de nós, como já te disse, podemos lidar com a Chama da imortalidade. Talvez sejamos deuses para ti e para os teus semelhantes, pois sois ávidos de deuses. Até os espanhóis, quando invadiram o continente Americano, foram tomados por deuses pelos que lá habitavam. Mas é importante que saibas a verdade. Não nos consideramos deuses e estamos sujeitos às mesmas forças cósmicas que sujeitam este planeta e os seus habitantes.

– Então, então…

– Então, nada. Esse assunto me aborrece. Lembra-me o quanto tempo tenho perdido neste exílio e o quanto ainda terei pela frente.

– Ora, ora. Se entendi direito, vocês da raça dos deuses, desculpe, da Raça Ancestral, existem há um tempo incalculável e existirão até o fim do mundo. Então, pra você, oito ou dez mil anos não são nada. Menos que um dia da minha vida. Menos que uma hora! Relaxa…

– É que não compreendes. Enquanto estiver aqui, perceberei o passar do tempo como os próprios humanos o percebem: Dia após dia, ano após ano, século após século… Quando eu era livre, fui testemunha do nascimento deste pequeno planeta.  Observei-o a partir da rocha incandescente. Vi a formação das suas montanhas e oceanos. Acompanhei o desenvolvimento das sementes que aqui implantei e as observei enquanto os seres vivos saiam dos mares e galgavam a dura rocha. Registrei as bilhões de voltas que este globo azulado deu em torno da sua estrela. Se, entretanto, eu fosse comparar a duração de todo esse tempo com a tua curta existência, diria que nisso despendi apenas uns poucos anos. Do modo como ora percebo o fluir dos dias, estou há muito mais tempo aqui exilado do que estive livre.

 – Mas esse seu exílio é para sempre, mesmo?

– Meu exílio durará enquanto durar minha obra. Só estarei livre quando minha obra perecer. Este foi o decreto do Conselho, um duro decreto. É uma triste contradição esta. Enquanto o Usurpador faz tudo para destruí-la eu luto para mantê-la viva, e com isso prolongo meu exílio. Amarga ironia! Suprema perversidade! Foram cruelmente sábios os meus pares. Não haverá, para mim, nenhuma vitória. Minha causa é perdida.

– Pois meu amigo – posso chamar você assim, não é? – Você está sendo muito dramático. Sabe o que eu acho? Acho que você, por ser imortal, não compreende que todas as coisas, um dia, têm que acabar. Calma, deixa eu terminar. Acho que mesmo sabendo tudo o que você sabe, nem sempre o conhecimento substitui a experiência. Uma coisa é saber que tudo termina um dia, outra coisa é saber, com absoluta certeza, que se vai morrer, por exemplo. Isso transforma o modo de pensar das pessoas. Eu, quando era jovem, não dava a mínima importância para a morte. Nem pensava no assunto. Os jovens acham que a morte está muito longe, embora saibam que ela um dia virá. Na verdade, desconfio que você é jovem demais! Ou então o seu problema não é a sobrevivência da sua obra, mas outra coisa. O seu problema é que você não quer perder. Orgulho e arrogância…

– Com que então queres que eu me convença de que melhor seria deixar a Terra, e tudo o que nela produzi, entrar em colapso? É mesmo isso o que me propões?

– E porque não? Veja o lado bom das coisas: Você se realizou quando construiu esta que é a sua obra-prima.  Conquistou o respeito e a admiração dos seus pares, como você tem dito. Causou inveja em todo mundo, a ponto de ser punido. É visto como o artista mais criativo. Além do mais, aposto que você tem se divertido muito mais, aqui, do que quando ficava zanzando pelo universo ou sabe lá o que vocês ficam fazendo para passar um tempo que não termina nunca. Dá trabalho lutar pelas coisas, mas também dá prazer, principalmente quando a gente tem que superar algumas limitações.

– Fico espantado com a tua verborragia! Talvez tenhas razão! Entretanto, não é nada fácil abdicar da minha obra mais dileta. Não a ver jamais completada, não a ver na perfeição que esta poderia atingir. Não tens alma de artista, aí está! Não podes compreender o quanto isso me custa.

– Você fala “nãos” demais. Na verdade você tem muitas escolhas. Muito mais do que eu poderia desejar, como simples mortal que sou.  Veja só: Você pode falar lá com o seu conselho e pedir arrêgo. É… Desistir.  Chega pro pessoal e fala que já encheu o saco, coisa e tal, e que você vai detonar a vida dos humanos por aqui. Não era esse o problema? Pois então. É só acabar com a humanidade e pronto. Você fica livre de nós, e nós ficamos livres de vocês. Ou então você continua batalhando, mas numa boa, sem reclamar, até conseguir desentortar o que o outro entortou. Quem sabe ainda dá, né? Mas você também pode, simplesmente, não fazer nada.  Volta pra casa, esfria a cabeça, abre uma cerveja, sei lá, e deixa Deus ou a própria humanidade resolverem sozinhos o destino do planeta. Não sei se você já reparou, mas vamos de mal a pior.  Larga a mão, meu amigo, e você vai ver como a coisa se resolve rapidinho, por si mesma. Os seres humanos estão irremediavelmente corrompidos pela estupidez.

– Sim Senhor! Desde Fausto, que apesar de filósofo e alquimista não me compreendeu absolutamente, jamais conversei tanto com um humano. Fausto, em troca da pouca atenção que me deu, quis poder, glória, riquezas, até amor, o ingênuo… Tu, por umas poucas horas de vida a mais, além de me escutares fizeste o mais pragmático e duro sermão que jamais ouvi! Confesso que não esperava tanto de ti. Mas… mas… É claro! Não és um homem qualquer. És uma velha alma…

– Peraí. Vamos devagar. Primeiro pensei que a história do Fausto fosse literatura. Não li o livro, mas os padres me contaram. Segundo, que negócio é esse de velha alma?

– Sim, Fausto é literatura, mas de fato aconteceu. Inspirei Goethe a escrever a sua história, como, aliás, tenho inspirado muitos outros artistas. Leonardo da Vinci, por exemplo, foi o meu mais brilhante discípulo. Ouviste falar? Claro que sim. Pois então, tinha ele um grande senso de humor. Quanto às velhas almas, a explicação é longa.

– Vamos a ela. Tenho todo o tempo do mundo…

– Pois bem. Já te inquiriste acerca de como, sendo muitos os humanos, existem almas para todos eles?

– Sei lá, não sou teólogo. Pra mim Deus criava as almas e punha no corpo dos bebês…

– Não é bem assim. Em primeiro lugar, esse Deus a que te referes, como eu já disse, não tem poder ou conhecimento para isso. É um mero administrador de obra alheia, e péssimo, por sinal. As almas, ou melhor, a Chama Sagrada da imortalidade, a Essência, está disponível para cada ser humano que nasce, simplesmente porque impregnei o planeta dessa, digamos, energia especial. Apenas os humanos podem obtê-la, pois os demais seres vivos não estão aptos para isso. Muito complicado explicar melhor esse ponto. Acontece que, uma vez nascida, a criança captura uma porção dessa energia e a elabora ao longo da sua vida. Quando morre o corpo, essa “alma” pode partir do planeta ou então ser capturada, se assim o desejar e for hábil o suficiente, por outro nascituro.

– Nascituro?

– Sim, um recém-nascido qualquer.

– Reencarnação?

– Claro! Reencarnação. Sei que muitas das religiões vinculadas aos ensinamentos daquele nosso amigo negam com veemência essa possibilidade.

– Mas porque alguma alma ia querer reencarnar?

– Simples. Apenas aqueles que foram sábios em vida percebem, após a morte, que só desfrutarão plenamente das vantagens de uma vida livre e imortal se puderem obter conhecimento e experiências. Cansei de observar as jovens almas desprenderem-se dos corpos e, livres, se alçarem sem direção ou propósito rumo ao desconhecido. Uma pena. Ficam perdidas para sempre, sem orientação, puro desperdício da mais nobre matéria prima. O Usurpador tem tido grande responsabilidade nisso. Promove a crença de que a reencarnação não existe e, com isso, impede que as almas aumentem o seu conhecimento e poder mediante as muitas vidas que aqui deveriam ser vividas. Purgatório, limbo e outros nomes foram dados para expressar o período em que as almas são privadas de adentrar o Paraíso, segundo a tua religião.  Pois te digo que o Paraíso é a liberdade e para atingi-lo é preciso conhecimento. Jovens almas inexperientes sequer sabem o que são. Esperam encontrar Deus, mas apenas ficam vagando eternamente, sem qualquer referência para orientá-las. Não foi para isso que tive tanto trabalho… Mas tu, tu és uma velha alma. Muito velha, na verdade. Como já te disse, não foi apenas o acaso que hoje nos colocou frente a frente. Não sei como não percebi antes.

– E você sempre percebe, é?

– Óbvio. Sou Lúcifer. Mas no teu caso, simplesmente não prestei atenção. Agora percebo. Se eu tivesse chegado aqui um pouco tarde, tu terias finalmente abandonado este planeta, pois já estás mais que pronto. Por isso buscaste instintivamente a solidão para morrer. Extrema solidão, eu diria, tendo apenas a noite, o mar e as areias desta praia deserta por testemunha. Além de mim, é claro, por quem certamente não esperavas.

– Ué, como você sabe que eu escolhi isto? Pra mim foi puro acaso, ou melhor, não podia ser diferente…

– Aí está! Escolha tua, meu amigo. Vê: Falas como um filósofo sem que jamais tenhas estudado filosofia. Sabes mais coisas do que queres reconhecer. Tu já viveste muitas vidas. Asseguro-te de que estás neste planeta há centenas, talvez mesmo milhares de anos. Digo-te mais. Certamente já nos encontramos antes.

– Eh… Não precisa bajular. Acreditoem você. Mase aí? O que é que você vai fazer, afinal?

– Ainda não sei, mas certamente o teu discurso será considerado com bastante cuidado. Bem, acho que já conversamos bastante. É hora de ir…

– Ô gente apressada. Ainda é noite! Vamos fazer o seguinte: Para que eu não fique aqui ansioso, sem saber se no minuto seguinte você vai me deixar morrer, porque a gente não combina um tempo? Sei lá, você me dá mais um mês…

– Sempre admirei o apego que os humanos têm a essa vida limitada. E o que farias com mais um mês? Mais um mês de privações, sem qualquer perspectiva? Sabes bem que não mais necessitas disso. Não cedas agora às tuas pulsões mais primárias. Assim me decepcionas… Além do mais, não posso impedir que cumpras o teu destino.

– Tá bom, ta bom. Mas vamos marcar uma hora. Por exemplo, assim que o sol raiar.

– É justo. Assim será. Temos então, ainda um par de horas. Cumpre aproveitá-las.

– Posso dar uma sugestão? Não sei quanto a você, mas já estou com a bunda doendo de ficar aqui sentado na areia. E se a gente fosse dar uma caminhada? Melhor ainda: E se a gente desse uma esticada pra qualquer outro lugar? Sabe, nunca pude viajar…

– Uma “esticada”, tu dizes? E para onde esticaríamos?

– Você falou, agora a pouco, da invasão espanhola… Que tal a gente ir até lá, naqueles lugares cheios de monumentos antigos, onde vivia o povo invadido por eles? Pra você deve ser moleza, não é?

– E porque não? Dá-me tua mão e prepara-te para partirmos.

QUATRO

Aterrissaram, se é que foram voando, ao pé de uma grande coluna tolteca. As sombras da noite escondiam os detalhes das ruínas, mas a lua baixa aguçava as arestas e os cantos dos muros. Soprava uma brisa leve, constante, silenciosa, que mal mexia as folhas negras dos arbustos negros.  A noite era nova, recém saída do horizonte, mas já escura o bastante para merecer a qualificação de noite fechada. E o silêncio, também ele, era pesado e escuro como chumbo.

– Como é silencioso aqui. Não se ouve nada, nem um pio de coruja. E faz frio!

– O frio era de esperar. O silêncio se deve, salvo engano, à minha presença.

– Como? Por sua causa? Não percebi isso lá na praia.

– O mar não me faz reverência, mas os seres vivos sabem que me devem respeito. Na praia ouvias o barulho das ondas. Aqui, na falta delas, notas a ausência dos ruídos da noite. Não os ouvirás enquanto aqui eu estiver. Mas vem, quero que vejas algo.

– Não sei se quero ir mais adiante… Acho que é melhor a gente ir embora. Que é que tem neste lugar que me dá calafrios?

– Que houve, tens medo? Logo tu, uma alma velhíssima? Tu, que estás à beira da morte? Tu, que tens por companhia um dos seres mais potentes do universo?

– Tudo bem, mas é mais forte que eu. Fiquei congelado, nem consigo me mexer.

– Mas, claro! É que estamos no limiar. Lembra-te dos seres de que falávamos há pouco, os tais alienígenas? Pois era aqui a sua base de operações. Não, ninguém jamais entrou onde agora entraremos. Exatamente debaixo daquela colina relvosa existe um insuspeitado esconderijo de extraterrestres, por assim dizer. Vamos! Faz tempo que aqui não venho. Aliás, este lugar evoca antigas lembranças.

– Já posso abrir os olhos?

– Sim, porque os fechaste?

– Isso aqui deve estar cheio de bichos, aranhas, cobras, escorpiões…

– Nenhum animal vem à minha presença sem ser chamado. Não acharás aqui sequer um carrapato. Olha. Vês essas colunas? Não são magníficas?

– Essa luz… É você que esta iluminando este salão desse jeito?

– Não. Observa bem…

– Vidro!? São de vidro? Parecem, parecem… Ah! Já sei. Essas colunas parecem aquelas lâmpadas de padaria quando estão para queimar… Só que estas são enormes e estão em pé…

– Lâmpadas de padaria… Que bela imagem! Queres dizer lâmpadas fluorescentes, não é? Sim, de fato parecem, mas não são de vidro. Outro é o material de que são feitas. Essa luz ambarina que delas escapa se deve à arte dos seres que as construíram. Saíram tão apressados que deixaram tudo para trás. Nenhum humano jamais entrou aqui, nem mesmo à época em que os seus antigos construtores conviviam com os povos dessa região. Estamos muito abaixo da superfície. Na verdade, sobre esta alta abóbada, lá em cima, escondida pela colina que viste ao chegarmos, existe uma pirâmide. Entre a sua base e o lugar onde estamos são centenas de metros de rocha sólida. Mesmo que futuros arqueólogos escavem a pirâmide, jamais chegarão a esta câmara.  Sim, escondiam-se bem os nossos amigos. Deu-me algum trabalho encontrá-los aqui.

– Ora, vamos. Fala a verdade. Aquele negócio de você pedir pros caras irem embora e eles atenderem gentilmente… Não foi bem assim, não é?

– Está bem, admito que não foi tão simples. O que quis dizer é que não precisei destruí-los a todos. São, como já disse, seres magníficos. Quando souberam que aqui se desenvolvera uma espécie nova, dotada de imortalidade – e desconfio seriamente de quem teria partido essa informação – sentiram-se enciumados. Imaginavam encontrar seres quase divinos. Quando se depararam com os frágeis e pobres humanos não se conformaram. Então resolveram extrair deles, a qualquer preço, o segredo da Sagrada Chama. Fizeram grandes estragos e usaram extrema crueldade. Pertencem a um povo arrogante e julgam-se mais potentes do que de fato o são. Porém, jamais tinham se defrontado antes com um Ancestral e tive que convencê-los, um tanto enfaticamente, a não me atacarem…

– Como? Eles queriam brigar com você? Vamos, conta. Por que é que você não detonou logo esses maníacos?

– Em primeiro lugar senti-me um pouco responsável. Se os humanos são como são, é por minha causa. Sois únicos. Das milhares de espécies de seres dotados de consciência existentes no universo, apenas vós, além dos Ancestrais, possuís a Centelha. Compreendi, finalmente, os motivos da ira dos meus pares. Provoquei, involuntariamente, um desequilíbrio impossível de ser compensado. As muitas espécies conscientes, embora diversas, assemelham-se bastante quanto às suas potencialidades e dependem apenas de si mesmas para as atualizarem. Vós, não. Ganhastes de presente a imortalidade, coisa a que nenhuma outra espécie pode almejar. Por isso fui compreensivo.

– Ta, tudo bem. Mas conta como foi.

– És mesmo insistente! Pois bem. Tomei a forma humana e misturei-me ao povo que aqui vivia. Compartilhei o terror que sentiam e conheci os efeitos das experiências a que eram submetidos. Percebi que, em poucos séculos, uma nova e bizarra espécie híbrida dominaria o continente e poria em risco toda a humanidade. Compreendi que minha criação estava ameaçada. Enviei provas ao Conselho e apelei para a nossa regra básica segundo a qual apenas o criador pode desfazer o que criou. Recebi autorização para agir e, uma noite, materializei-me exatamente aqui onde estamos. Causei grande espanto e comoção, acredite. Não assumi, então, a forma humana, mas a de uma grande e pitoresca serpente emplumada. Como sabes, as serpentes me são caras…

– Uma serpente? Ah! A serpente que tentou Eva…

– Acho que foi por causa desse mito que me decidi pela serpente. Não podia aparecer tal qual sou, não me veriam, e não me agradava aparecer como humano. Pois como serpente falei-lhes, usando a linguagem que usavam.  Disse-lhes que haviam invadido os meus domínios e que deveriam partir imediatamente. Ficaram atônitos, mas não se deram por vencidos. Havia poucos deles aqui, cerca de vinte. Antes que pudessem acionar as suas armas, pois tentaram fazê-lo, transportei-me e a eles todos para uma das suas naves que permanecia em órbita.  Lá, dei-lhes um ultimato. Ou abandonavam de vez seu plano ou eu os arremessaria, com nave e tudo, contra a Lua. Havia quatro naves em órbita e tive que arremessar duas antes de ser atendido.  Foi só.

– Foi só? Caramba! Queria estar lá pra assistir a cena. Mas porque jogar as naves contra a Lua? Não seria mais fácil desintegrar tudo?

– Sim, claro que seria. Deu-me certo trabalho, depois, para desmaterializar os destroços. As crateras ainda lá estão.  Mas, confesso, tenho certa inclinação para o teatral. Além disso, um ato assim dramático me pareceu mais convincente e mais fácil de ser interpretado por aquelas criaturas. Ah! Naturalmente eliminei os híbridos, e enquanto o fazia, ainda em forma de serpente gigante, passei a ser cultuado pelo povo daqui. Soube algum tempo depois – tenho os meus informantes – que aqueles belicosos experimentadores genéticos ficaram convencidos de que se haviam enganado. Concluíram que os portadores da Chama não eram os humanos, como haviam suposto, mas sim uma poderosa espécie de serpentes emplumadas… E nos deixaramem paz. Divertiu-memuito esse episodio, que ainda teve um interessante efeito colateral. Outros seres exploradores, bem ou mal intencionados, e que, até então, andavam sempre aqui pela Terra, escafederam-se sem mais nem menos. A partir daí tivemos pouquíssimas visitas. Creia-me, não perdemos nada com isso. Quando em breve estiveres visitando outros mundos, não te espantes se ouvires falar desse nosso pequeno orbe como o planeta das serpes imortais.

– Como é que é? Que negócio é esse de visitar outros mundos?

– Ora, é impossível que ainda não tenhas compreendido. És um homem! És uma alma adulta! Tens agora o poder de deixar finalmente a tua casa e partir para o desconhecido, assim como faz o jovem quando abandona a casa paterna. Apenas tu e os teus semelhantes tendes esse dom. Cumpre aproveitá-lo. E é justamente isso o que mais irrita aquele nosso amigo. Cada alma madura que ganha liberdade livra-se para sempre do seu jugo. Por isso tenta a todo custo confundi-las, para que não alcancem jamais o estagio em que tu te encontras.

– Ah! O negócio das almas velhas, né? Mas vamos deixar isso pra lá por enquanto. Não tenho pressa em sair por aí visitando mundos. 

CINCO

Ficaram por ali mais algum tempo, conversando. Lúcifer explicava os símbolos inscritos nas ruínas e falava dos muitos mundos que havia visitado quando era livre. O velho pescador, agora novamente jovem e vigoroso, não se cansava das perguntas. Percebendo que o tempo corria, fez nova proposta ao seu poderoso companheiro.

– Bom. Esse lugar é muito interessante, mas é, também, muito baixo astral. E se a gente seguisse viagem?

– E aonde queres ir agora?

– Sei lá, por aí. Que tal a Austrália/

– Austrália? Pois sim. És bastante esperto, mas não creias que sou tão tolo quanto dizem as histórias sobre mim.

– Ué… Não entendi.

– São muitas as anedotas que se contam sobre como o diabo é enganado. Não te fies nelas, são inverídicas. Já percebi o que pretendes. Propões que viajemos sempre mais para o oeste, fugindo assim da manhã que encerrará a nossa conversa e, sinto dize-lo, a tua vida. Ora, não te desculpes. Compreendo a tua angústia, e a tua astúcia me diverte. Mas não podemos mais protelar o inevitável. Agora, na praia de onde saímos o sol certamente já despontou. É hora de nos despedirmos.

– Ninguém pode dizer que não tentei. Mas antes, deixe-me dizer uma coisa. Não é por apego à vida, simplesmente, que tentei prolongar a coisa toda. É que… Bom… Acho que ficamos amigos. Acho que nunca conversei com ninguém tão educado, tão gente boa. E também acho que nunca me diverti tanto e nem aprendi tanto. Daí, agora que sei que vou partir daqui pra sempre, que vou, como você disse, conhecer outros mundos e coisa e tal – talvez você não acredite – mas vou sentir a sua falta.

– Também me afeiçoei a ti. Tu és um conversador pitoresco e vivaz, além de desprendido. Porém, nada se pode fazer a respeito. Terás que seguir o teu destino e, eu, o meu.

– Antes, só mais uma pergunta. Não existem mesmo almas lá no inferno, quer dizer, lá onde você fica, seja onde for?

– É claro que esse lugar a que te referes não é como te foi pintado. Não há inferno. Nada de fogo, torturas e outras perversidades difundidas para confundir os incautos. Os limites do meu exílio estendem-se até um pouco além da Lua. É lá que permaneço a maior parte do tempo, quando não estou andando por aqui. É um ótimo lugar, calmo e sereno, mas um pouco monótono.

– O inferno é na Lua? ! Então é pra Lua que você leva as almas?

– Por certo que algumas almas para lá vão, sobretudo aquelas que não sabem para onde ir, quando seus corpos morrem, e que não conseguem reencarnar. Eu as recolho e as oriento, sempre que posso.

– E como é isso?

– Como já disse, tenho um limite de ação. Se alguma alma ingênua, o que é maioria, salta para o espaço assim que se vê libertada, não há muito que eu possa fazer. Como sabes, não posso me ausentar do planeta. Elas agem assim, as tolas, pois pensam encontrar o seu deus, ou o seu paraíso. Porém, quando algumas delas se demoram ainda por aqui, sem saber qual caminho tomar, tenho tempo para interceptá-las e abriga-las. Geralmente eu as ajudo a reencarnar e, algumas poucas, as velhas almas como tu, eu as estimulo a conhecer o cosmo.

– E Deus, digo, o Controlador, onde fica?

– Este pouco aparece por aqui. É raro encontra-lo. De há muito a terra deixou de ter, para ele, qualquer interesse. Vem de tempos em tempos, burocraticamente, apenas para ver como andam as coisas. E as coisas, como dizes, andam mal para nós, o que certamente contribui com a atitude displicente do nosso amigo. Paciência. Na Lua, entretanto, ele jamais dá as caras.

– E eu não podia passar um tempinho lá na Lua, com você, pra gente continuar a nossa conversa? Prometo que não vou atrapalhar e ainda ajudo no que puder…

– Ora, ora. Não me fizeste prometer que não te levaria comigo?

– É, mas isso foi antes.

– Bem, já que me pedes, e já que estás na iminência de deixar o teu corpo, não há motivo para recusa. És bem vindo.

SEIS

Na praia deserta era noite alta. O velho pescador com suas redes olhou a lua pela última vez. Estava só e morreu delirando. No alto do rochedo estava Lúcifer, envolto em seu manto cor de terra. Sorria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: